Revista Rua

2019-07-26T15:19:04+01:00 Opinião

Nem alegre nem triste

Crónica
Francisco Santos Godinho
26 Julho, 2019
Nem alegre nem triste
Imagem ilustrativa

A mulher que nas pausas fumava na varanda do Rivoli, mais sombra e silhueta que mulher, só se distinguia do estuque pelo avental e o cabelo muito esticado, preso num elástico, de costas para a praça e por isso berrava, existindo no silêncio da praça e da fachada caiada com os perfis do teatro grego embutidos na esquina arredondada, acima das janelas com pé direito gigantesco, com caixilhos metálicos em cinza baço e percebia-se nela a humildade de perceber os outros, sem se impor a ninguém de forma alguma, supunha-se que a solidão daquela varanda a seguisse até casa, degrau após degrau, com as inseguranças de se sentir só com ela própria e logo aí dificilmente se está sozinho, estamos sempre connosco e tem-se aí a raiz da coisa, percebia-se uma outra silhueta de homem a seu lado que mais tarde se evadiu para dentro arrastada pelo copo que trazia na mão, sentiu-se-lhe um suspiro maior que aumentou dentro da blusa e suponho que fosse o preço que pagava noite após noite naquela varanda, caminhando uma presença abandonada de si mesma até à paragem de autocarro e aí perguntava o que seria de si quando o tempo principiasse a moldar a forma como se esquecerá do que se quer lembrar ou a forma como se lembrará daquilo que quer esquecer. A justiça do tempo é sempre uma redenção, de alguma forma é uma redenção e traz uma paz qualquer que surge sem que seja convocada, a saudade em que se submerge de cada vez que inveja o cigarro por este se evaporar nas nuvens da noite de junho na baixa da cidade, a saudade que tem desse passado que durará mais do que tudo até que se detém num dos lampiões de rua, escorregando pelo silêncio e pensa: o som mais ensurdecedor é aquele que não se ouve mais, apenas subsiste num quarto de pensão, vazio de gente. Julgo que não pensou em nada disso, olhou antes para a rua e subiu no autocarro que chegou, sem se sentir alegre nem triste, subiu e desapareceu para longe. Talvez assim, também eu suba para o autocarro seguinte, nem alegre nem triste e desapareça para longe destas palavras.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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