Revista Rua

2020-06-02T12:26:36+00:00 Opinião

Nem que seja por um instante

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
2 Junho, 2020
Nem que seja por um instante

As casas da minha infância vão encolhendo e crescem as salas (ou sou eu que mingo) das minhas recordações, a memória lá se vai arranjando e muda de casa quando se lembra. A casa do senhor Menezes, vizinho da minha bisavó, desapareceu um dia, simplesmente desapareceu, nem as fundações sobraram, só uma vala enorme sobrou e, por algum motivo, pouparam o jardim, valha-me isso. O doutor Sá Lima, o meu amigo e vizinho de cima morreu. Era

(não era, continua a ser)

um homem com letra maiúscula. Pensando melhor, não morreu, afinal não deixou de se passear perto da esplanada de cachimbo na boca, nem deixou de sorrir com os olhos semicerrados, feliz, alegre, nunca deixou de me cumprimentar do fundo de si e eu pequenino, depois eu mais velho e depois eu a visitá-lo em casa, em frente ao sofá, conversávamos e falávamos calados e ele com o pratinho das bolachas no colo e um copo de sumo, já mais silencioso mas sempre a sorrir, a sorrir, os olhos bondosos, perguntava

– E como é que está o meu amigo?

(cada palavra dele com um sorriso por baixo)
se me perguntasse agora dizia-lhe que não está lá grande coisa, sem me adiantar mais porque um homem não chora, mas se me prometer que, daqui a nada, na minha frente, me pergunta o mesmo a sorrir, digo-lhe

– Agora sim, está tudo bem
e tudo volta a ser como dantes, nem que seja por um instante.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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