Revista Rua

2019-12-18T13:33:55+00:00 Radar

Neste Natal… leia mais!

As sugestões de livros para este Natal.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva10 Dezembro, 2019
Neste Natal… leia mais!
As sugestões de livros para este Natal.

Com o Natal aqui à porta, têm sido imensas as novidades literárias que têm surgido pelas editoras nacionais. Nesta tendência outono/inverno, decidimos optar por uma divisão somente geográfica, tendo as publicações em comum a vontade de fugir ao politicamente correto, optando por pôr em questão o sistema pré-estabelecido e que acaba por colocar em causa a nossa própria liberdade de pensamento e expressão. Por isso, falamos de livros que nos fazem entrar noutros mundos, noutras realidades, mas que, ao mesmo tempo, nos obrigam a pensar naquilo que nos rodeia. Será este o objetivo máximo da Literatura.

Do Brasil, com Amor

Prólogo, Ato, Epílogo, de Fernanda Montenegro

Para começar temos a biografia de Fernanda Montenegro, Prólogo, Ato, Epílogo. Aos 80 anos, a musa da televisão e cinema brasileiros tornou-se imortal em vida quando foi atacada publicamente em outubro último pelo atual diretor de Artes Cénicas da FUNARTE, Roberto Alvim, após ser capa do jornal literário Quatro, Cinco, Um. Neste, surge como uma herege prestes a ser queimada numa pira da Santa Inquisição e insurge-se enquanto ativista em defesa da democracia no meio cultural. Adjetivando a artista como “sórdida” e “desprezível”, Alvim apenas conseguiu que Montenegro se elevasse ainda mais na hierarquia cultural brasileira e mundial, principalmente numa época em que a censura parece regressar ao país tropical de língua portuguesa. Contudo, e singelamente, a sua biografia, escrita a par com Marta Góes (Companhia das Letras), apenas conta o seu percurso até à atualidade, episódios de vida desde que os avós atravessaram o oceano em rumo de uma vida melhor. A forma como Arlette Pinheiro Esteves se transformou em Fernanda, nas inúmeras peças de teatro que foi estrela, sabendo de antemão que não seria pela sua beleza, mas sim pela sua atitude em palco que faria a diferença. Um livro não (totalmente) político que se lê facilmente como um romance, sendo sério e mordaz, onde os momentos mais duros da vida da artista são combatidos com momentos de humor e onde às vezes, muitas vezes, se percebe o tom sarcástico com que Fernanda vê o mundo onde se encontra.

Essa Gente, de Chico Buarque

De seguida, apresenta-se Essa Gente (Companhia das Letras), de Chico Buarque. Cantor, escritor, autor e vencedor do Prémio Camões 2019, Buarque tem todo um país contra e a favor dele. E, em Essa Gente, a história em forma de diário de um escritor famoso, mas em plena crise de meia-idade, bate certeiramente com a vida atual no Rio de Janeiro (e no Brasil), pautando entre as questões pessoas e metafísicas, sociais e políticas. Buarque, ainda no meio do furacão pela não assinatura de Balsonaro ao Prémio Camões atribuído por Portugal, acaba por sair vencedor como sempre, e este livro é apenas um estalo sem mão à atual política cultural brasileira onde se assiste a uma “vingança” do próprio Presidente contra todos os que o atacam. Uma “censura” camuflada onde filmes e peças de teatro não são impedidos ou cancelados de estrear, mas sim “adiados por tempo indeterminado” de serem apresentados ao grande público.

Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho

Escrito por Alexandra Lucas Coelho, jornalista e autora portuguesa, Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso (Caminho), começou com um pedido do cantor à escritora. Um livro dedicado à sua terra natal, um livro que falasse sobre as pessoas, os locais, sítios e cheiros. Para quem conhece a Bahia e o Recôncavo baianos, Estados ligados como siameses, percebe facilmente que este texto de Alexandra só poderá ser extremamente especial e pessoal. Uma viagem a Salvador é como um despertar de sentidos, sabendo que foi ali onde os primeiros portugueses puseram pé, passando tormentas e tempestades. Foi o marco inicial para o melhor e para o pior dos Descobrimentos, mas é nesta capital que pudemos afirmar também que estamos em Casa, com as suas ruas tão tradicionais, tão portuguesas, as suas igrejas cristãs umas coladas às outras, o candomblé, o som e batuque vindo dos terreiros, a comida com inspiração africana, o cheiro a maresia assim que nos voltamos neste caso, neste meridiano, para leste. Mais, Cinco Voltas na Bahia é um mapa também pelo sertão, quase roçando os limites com a Chapada Diamantina, onde quilómetros de estrada nos levam a percorrer paisagens de tons ocre, aqui e ali com vegetação seca, típica, e onde, aqui e ali, surgem casarios, e onde, aqui e ali, saltam crianças ávidas de pessoas, de novidades. Alexandra Lucas Coelho transmite-nos esta ideia e muito mais. Jorge Amado poderá estar orgulhoso! Caetano e todos os beijos que merece, também!

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha

Para concluir o núcleo dedicado ao Atlântico Sul, aparece o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Porto Editora) escrito por Martha Batalha. Atravessando o Brasil desde a década de 40 até aos dias de hoje, conta a história de duas irmãs filhas de portugueses num Rio de Janeiro desaparecido. A história aparentemente banal é, no entanto, muito diferente do que os leitores possam imaginar. Guida e Eurídice tinham sonhos, mas o desaparecimento da primeira, após uma paixão proibida e uma gravidez “vergonhosa” para o seu pai, levam a que a outra opte por abdicar de tudo o que queria fazer, tornando-se assim, a filha e esposa obediente, perfeita, mãe de família, doméstica sem vocação. Apesar do “bom marido”, Eurídice é miseravelmente infeliz, e a sua história não é diferente nem das mulheres nascidas na mesma época e que foram educadas apenas para serem boas donas de casa, tal como a violência que acaba por sofrer, mais psicológica, menos física, mas em qualquer caso, fatal, não é diferente da violência que as mulheres sofrem até ao dia de hoje, numa luta desigual para serem ouvidas e respeitadas dentro das suas famílias.

O livro foi adaptado ao cinema por Karim Ainouz e em maio ganhou o Prémio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Estreou agora no Brasil envolto em aplausos e, mais uma vez, é levado a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional, com a especial intenção de levar também o nome de Fernanda Montenegro novamente à nomeação de Melhor Atriz Secundária.

Dois policiais e uma história da História

João Tordo tem novo livro. Lançado no passado mês de outubro, apadrinhado por Francisco José Viegas, A Noite em que o Verão acabou (Companhia das Letras) é o primeiro registo em género thriller do autor. Uma história viciante, passada entre Portugal, mergulhando nas próprias memórias juvenis de Tordo pelo Algarve dos anos 80, e os Estados Unidos em vésperas do novo milénio. Aqui acompanhamos Pedro Taborda, o protagonista, à medida que procura respostas em relação à morte do multimilionário Noah Walsh, pai do seu antigo amor de adolescência, Laura, dez anos depois de os ter visto a última vez. Numa tentativa de descobrir a verdade e defender a principal suspeita do crime, a outra filha de Noah, Pedro acaba por pôr em causa tudo aquilo em que acredita ao ver-se envolvido num enredo que atravessa décadas e gerações, entrando em cheio nos segredos de uma das famílias mais importantes da sociedade nova-iorquina. Para João Tordo, escrever este livro foi uma catarse sem quaisquer receios da possível crítica nacional, muitas vezes discriminatória em relação ao género literário. Mais importante do que essas opiniões, de acordo com o autor há que ter em conta a opinião dos seus inúmeros leitores, e claramente, a conclusão da própria trama: o encontro do protagonista consigo próprio, num retorno a casa (ao Algarve), numa nova visão à vida.

Continuando dentro do ambiente policial, Francisco José Viegas regressa agora com mais um caso do Inspetor Jaime Ramos, A Luz de Pequim (Porto Editora). Agora aos 60 anos, sendo pressionado para deixar a Polícia, Ramos tem de lidar não só com uma auditoria interna em relação ao seu trabalho de uma vida, como com a resolução de um caso que o leva a viajar até à China, ao mesmo tempo que vai relembrando pedaços da sua vida com eternos amigos e companheiros na sua cidade do Porto. Tal como Ramos, o protagonista que neste momento já nada tem a perder e prefere deixar a hipocrisia de lado, nomeadamente quando o caso começa a mexer com os meandros cinzentos da política nacional, o seu “criador” Francisco José Viegas também já não tem problemas em colocar-se como um dos principais e melhores escritores nacionais, que por via de várias entrevistas e através da sua personagem, vai colocando os pontos nos i’s ao “politicamente correto” que parece estar a crescer na sociedade lusa atual. Não se pode deixar de falar dos assuntos, apenas porque são incómodos. Devem ser mencionados e discutidos exatamente por ainda causarem incómodo.

Por fim, mas não menos importante, temos um retrato da sociedade política e jornalística durante os oito anos a seguir à Revolução de Abril. Manuela de Sousa Rama será porventura mais reconhecida pela sua presença na RTP, mas este seu primeiro romance histórico A Culpa foi da Revolução (Clube do Autor), certamente enche a vontade de saber mais sobre uma época conturbada na História nacional, nomeadamente o pós-25 de Abril. Aproveitando a fase de revivalismos, (e aproveitando o regresso da série Conta-me como Foi, passada agora na década de 80) Sousa Rama traz a lume os acontecimentos que procederam a revolução e o tempo que se seguiu até à dissolução do Conselho da Revolução no ano de 1982, baseando-se em factos verídicos. Numa crítica (ainda que indireta) às escolhas feitas nessa fase tão peculiar, principalmente a pressão sentida pela imprensa nacional, podemos identificar que a censura nunca acabou, simplesmente terá mudado a cor política, algo que hoje ainda se verifica de forma pouco dissimulada nos órgãos de comunicação social. O que adianta uma mudança para melhor, se o resultado final poderá ser, na mesma medida, redutor da liberdade de expressão? A Culpa foi da Revolução não é um romance político por si, nem aponta dedos a ninguém, simplesmente mostra como a História tem tantas ramificações e muitas vezes, os erros do passado, perpetuam-se num futuro que permanece incerto.

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