Revista Rua

2019-07-01T16:09:08+00:00 Opinião

.no meio dos lobos ou dos cordeiros?.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
1 Julho, 2019
.no meio dos lobos ou dos cordeiros?.

Nunca me considerei loba. Mas também nunca me considerei cordeiro. Gosto de me passear no meio de ambos, num formato híbrido que vai tentando captar e incorporar o melhor das duas espécies. Há quem aponte o dedo para dizer que essa é uma atitude cobarde. Que há que decidir permanecer de um lado ou do outro, como se tudo na vida fosse simplesmente branco ou preto.  E, na civilização do espectáculo, há tantos lobos e tantos cordeiros, que o melhor é mesmo aprender com eles. Mas quando um lobo veste a pele de um cordeiro, o melhor é estarmos atentos.

Perdoem esta pequena incursão ao mundo animal, mas sou uma grande fã da história do Pedro e do Lobo e cito-a muitas vezes, assim como a simbologia dos seus animais. Consigo compreender a necessidade de sobrevivência dos animais, assim como a necessidade de sobrevivência dos artistas, ambos nos seus respectivos mundos. Mas quando não se trata de sobrevivência, mas sim de poder, de que forma devemos então encarar a forma como se comportam?

Há uns tempos numa conversa com um artista (os nomes não adiantam quando há tantos exemplos parecidos ou iguais), fiquei admiradíssima com a sua atitude de despreocupação total com aquilo que o público, jornalistas/críticos e comunidade politicamente influente pensava acerca da sua obra. Falava com um fervor e com uma tenacidade (ambos tão autênticos!) de quem não precisa absolutamente de ninguém para sobreviver no mundo artístico. Embora não concordasse com aquela visão, não deixei de o admirar pela consistência do seu discurso. Imaginei como deveria ser difícil articular a sua prática num mundo tão pequenino, onde uma visão tão radical, e tornada pública, pode criar barreiras. Mas, a verdade é que nós acreditamos exactamente no que queremos acreditar. Há pessoas que, num ápice, têm uma noção perfeita do momento em que devem vestir a sua pele de cordeiro para que ninguém perceba que está ali um lobo. E o disfarce é tão bom que demoramos muito tempo a descobrir a sua verdadeira identidade.

Há pessoas que, num ápice, têm uma noção perfeita do momento em que devem vestir a sua pele de cordeiro para que ninguém perceba que está ali um lobo. E o disfarce é tão bom que demoramos muito tempo a descobrir a sua verdadeira identidade.

Andei com esta conversa na mente durante algum tempo. As temáticas discutidas levantaram em mim várias questões, como, entre outras, ceder ou não à opinião pública, ou dar ouvidos e misturar-me com os “influentes”. Era como se, mesmo não estando daquele lado da vedação, tivesse a tentação de passar para lá. Até que, há pouco tempo, soube que essa pessoa tinha ocupado um cargo importante. Demorei algum tempo a processar a informação até porque as coisas que acontecem, neste país, na área da cultura (e não só, obviamente!) são, variadíssimas vezes, totalmente inacreditáveis. Depois, resgatei a conversa da minha memória e lembrei-me de todas as suas palavras. Pergunto-me porque é que alguém se dá ao trabalho de construir uma imagem de cordeiro injustiçado, quando tudo o que andou a fazer nos bastidores era para que todos finalmente pudessem perceber que era O lobo que devia estar à frente da alcateia?

Não gosto de cordeiros que se disfarçam de lobos, nem de lobos que se disfarçam de cordeiros. Não me venham atirar com discursos bonitinhos, cheios de bandeiras anti tudo, quando, no fundo, o que querem é tão parecido com os que são arrogantemente sinceros. Pelo menos, eu ando lá pelo meio e todos sabem que não sou uma coisa nem outra. Mas, quanto mais caminho entre um lado e o outro, menos percebo quais são afinal as suas fronteiras. E, afinal, como é que se sobrevive no meio disto tudo?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Dramaturga, professora, investigadora, yogui.

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