Revista Rua

Noiserv: “Se conseguir fazer as pessoas sentirem alguma coisa, acho que sou feliz”

O músico português David Santos, mais conhecido como Noiserv, está em entrevista na RUA.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira13 Julho, 2020
Noiserv: “Se conseguir fazer as pessoas sentirem alguma coisa, acho que sou feliz”
O músico português David Santos, mais conhecido como Noiserv, está em entrevista na RUA.

Chama-se David Santos e, desde 2005, dá vida ao projeto musical Noiserv, projeto que lhe vale o título de “homem-orquestra” graças à ilha de instrumentos com que, sozinho, o músico lisboeta faz música. No regresso aos “palcos verdadeiros” depois do período de confinamento causado pela pandemia, a RUA falou com Noiserv sobre o novo disco que aí vem.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em primeiro lugar, queremos perguntar-te: este concerto, no Anima-te, em Vila Nova de Famalicão, marca o teu regresso após o isolamento. Qual é a sensação de voltares a um “palco verdadeiro” depois de quatro meses sem espetáculos e em confinamento?

Eu tinha um bocadinho de receio – e ainda tenho relativamente aos concertos que se seguem – sobre esta ideia da lotação. Claro que há concertos que correm menos bem e há menos pessoas, mas nunca sentes que as pessoas estão perdidas no meio do espaço. Em Famalicão, apesar da organização do espaço e do distanciamento, como vieram muitas pessoas, pareceu-me um concerto quase normal. Pensei que um concerto em distanciamento social me fosse fazer muita mais confusão do que fez.

O regressar ao fim dos quatro meses é sinónimo de voltar a sentir aquele nervoso antes de entrar – que é uma sensação em que me vicio um bocadinho e sentia falta. Tinha medo de ficar mais ansioso ou mais nervoso quando estivesse a tocar e, neste concerto, senti-me à vontade. Foi especial! Acho que este concerto em particular foi praticamente igual ou melhor do que outros numa noutra altura.

Sentiste que este período de confinamento foi bom para ti enquanto artista?

Muitas pessoas acharam que este período mais de isolamento era um período bom em termos criativos… eu achei horrível! (risos) Achei impossível fazer o que quer que seja. Não é que eu tenha ficado muito obcecado com a doença, mas parece que, se o mundo à tua volta não está normal, tu também não consegues estar normal. Portanto, foi um período estranho por isso. É verdade que os meus dias de semana eram basicamente assim, isolado, no estúdio a fazer coisas sozinho. Lido bem com estar sozinho. Mas o facto de não poder estar com pessoas ao final do dia já foi mais complicado (risos).

“Muitas pessoas acharam que este período mais de isolamento era um período bom em termos criativos… eu achei horrível! (risos) Achei impossível fazer o que quer que seja. Não é que eu tenha ficado muito obcecado com a doença, mas parece que, se o mundo à tua volta não está normal, tu também não consegues estar normal.”

Estás a trabalhar num novo álbum, que vai ser lançado em setembro. No entanto, já tens lançado alguns singles. Podes falar-nos um pouco sobre este novo trabalho?

Eu acho que o facto de eu fazer música sozinho faz com que, cada disco, tenha uma mensagem ou um tema que une, mais ou menos, as músicas todas. Acho que neste trabalho aconteceu um bocadinho isso. Neste caso, acho que trago a dinâmica do: como é que eu lido com o facto de este ser o meu quarto disco e haver pessoas que gostaram dos outros e, agora, quererem uma coisa diferente? Como é que posso fazer um disco diferente dos outros, mas não desiludindo quem já gostou e, acima de tudo, não me desiludindo a mim mesmo? Qual é a capacidade que eu tenho (ou não) de me reinventar de uma maneira que eu goste? E, depois, uma analogia entre as músicas e a minha vida em particular. Que música é que eu faço para que as pessoas que já gostavam não se desiludam e como é que eu sou na minha vida para que as pessoas não se desiludam? Às vezes, nessa luta, podemos perder-nos no foco que eu acho que não pode ser muito egoísta porque nós vivemos uns com os outros. Portanto, acho que este disco tem um bocadinho essa coisa do “o que é que isto vai ser?”, evidenciando também o bloqueado que eu estive durante algum tempo com medo de não gostar do que fosse fazer. Acho que isso acabou por estar nas músicas todas.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em termos de processo criativo, como te descreves?

Eu não sou muito de pensar “vou fazer um disco sobre pássaros”. Eu vou fazendo uma base melódica na guitarra ou no piano e depois vou cantando coisas por cima. De forma inconsciente ou não, os inícios das músicas, as melodias que eu vou fazendo, as frases que vêm desses rascunhos iniciais têm muito a ver com o estado de espírito que eu estou naquela altura, sem que eu pense muito nisso. E isso é engraçado. Porque é uma coisa que vem não sei muito bem de onde, mas que acaba por refletir o que eu sentia, às vezes até parece quase em antecipação. Há músicas que falam de coisas que me aconteceram depois… eu acho esse envolvimento engraçado. Por exemplo, eu acho que o disco de piano de 2016 fala muitas vezes do meu medo das coisas estarem a acabar. E este disco é o contrário. É o não querer que acabem. É o que tu podes fazer para que as coisas não acabem. Claro que isto não é tão literal porque acaba por ser meio metafórico e filosófico para a tua vida no dia a dia. Mas este disco tem esse tema. Em termos instrumentais, ao contrário do disco de 2016 que era de piano, é um regresso às pistas todas… e uma coisa que eu nunca tinha feito: muitas pistas cantadas em português.

“Eu acho que é giro tu saberes que há qualquer coisa mais ou menos única naquilo que tu fazes. Não é a “orquestra” no sentido de eu tocar muitas coisas, mas sim tocar naquela ilha com os instrumentos todos. Isso é uma coisa que eu acho que é Noiserv!”

Porquê?

Tinha feito um disco mais simples em inglês, depois um disco mais cheio de instrumentos também em inglês, depois quis quebrar isso para o disco de piano e quis experimentar português, fazendo um disco só com três músicas cantadas. Pensei que o que me faltava fazer eram os loops todos, mas cantado em português. Este era o desafio deste disco. É um desafio acrescido porque eu quis que estas músicas funcionassem tanto com um instrumento sozinho como com as pistas todas. Portanto, tive uma preocupação muito maior para que a música fosse inteira. Fiz a música toda na guitarra antes de começar a fazer os arranjos. E nunca tinha feito isso! Mas é tudo muito complicado de explicar porque é um processo que dura quase dois anos (risos).

O teu processo criativo é muito por impulso?

Não é nada pensado à partida, sim! (risos) Neste disco que aí vem, a única coisa que eu pensei foi: quero ter muitos instrumentos, muitos deles com texturas ligeiramente diferentes. Queria, se calhar, fugir àquela dinâmica do Noiserv dos brinquedos, o Noiserv dos plim plins. Ou seja, ter lá os plim plins na mesma, mas isso não ser a massa principal daquilo.

Consideras-te mais maduro, por assim dizer?

Não sei se “maduro” é a palavra, porque eu não acho que deixar de usar os instrumentos de criança seja eu estar a ficar mais velho. Acho que, se calhar, tentei ser mais requintado com os sons e demorei mais tempo em cada som. Por exemplo, o Almost Visible Orchestra (2013) tinha músicas com 80 instrumentos e este próximo disco o máximo que tem é 40. Mas, se ouvires o disco, este parece mais cheio. Porque cada um destes sons é mais trabalhado, tem mais processamento, muitos reverbs, tem delays, é um trabalho muito maior. Eu, à partida, percebi que aquilo que eu gostaria de ouvir teria algumas diferenças. O que manda é sempre o que eu vou gostar de ouvir. Eu sabia que queria fazer o disco em português e, a partir daí, foi ir fazendo.

É importante para ti essa lógica de escrever português? Foste conduzido a escrever em português por cada vez mais artistas portugueses cantarem em português?

Não, nem foi muito por isso. Foi mais pelo desafio. Eu fiz o disco de piano com as três canções em português e achei piada à intensidade que conseguia dar às palavras em português. Não é que não dê em inglês, mas comecei a perceber que em alguns temas mais emotivos para mim, em todas as vezes que eu tocava a música, sempre que eu dizia aquela frase, aquilo batia-me sempre da mesmo maneira. E, em inglês, isso não acontecia tanto. Não que eu não perceba o que estou a dizer, mas porque entras numa cena mais mecânica. E nesse mecânico, o português é mais direto. Quis perceber o que sentia ao fazer um disco muito cheio, mas só em português. Até porque não queria misturar português e inglês. Aliás, eu acho que a língua que tu escolhes condiciona um bocadinho a melodia com que tu cantas. Eu, hoje em dia, se chegar ao piano para fazer uma melodia, em dez minutos consigo perceber se vou fazer a música em português ou em inglês. Consigo perceber que o la-la-la que eu fiz vai funcionar com sílabas em português ou em inglês.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Noiserv tem o cunho de homem-orquestra. É interessante para ti ser assim descrito?

Eu acho que é giro tu saberes que há qualquer coisa mais ou menos única naquilo que tu fazes. Não é a “orquestra” no sentido de eu tocar muitas coisas, mas sim tocar naquela ilha com os instrumentos todos. Isso é uma coisa que eu acho que é Noiserv! Há muitas pessoas que usam loops, mas se calhar não é num contexto assim. Deixa-me contente ter criado uma coisa sem ser pré-concebido à partida. E aquilo ser cada vez mais eu, só. Isso acontece na voz, nos arranjos. As pessoas ouvirem um pormenor qualquer e perceberem que deve ter sido Noiserv a fazer é das coisas que me dá mais prazer. Sentir que aquilo que fiz é especial de alguma forma, que é diferente das outras coisas… Esse conceito de “homem-orquestra” liga-se a essas coisas e deixa-me sempre contente quando as pessoas veem alguma coisa de particular ali.

Vou ler uma passagem da tua entrevista anterior connosco, em 2017: “Emoções, estados de espírito, histórias… Se conseguir fazer as pessoas sentirem alguma coisa, terem vontade de fazer alguma coisa, acho que sou feliz”. Manténs a tua palavra? Serás feliz se criares emoção com a música?

(risos) É isso! Posso voltar a repetir a resposta porque é igual! Eu sempre gostei muito de música e sempre quis associar os momentos importantes da minha vida a uma música qualquer. Se a minha música conseguir chegar às outras pessoas como aquelas músicas que eu gosto me chegam a mim, é isso! Música triste, música contente, música o que for. Uma música triste que eu ouço de outra pessoa e que eu gosto muito, deixa-me feliz! Portanto, sentires que a tua música faz isso aos outros é ótimo! É para isso que se tem esta luta toda (risos).

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