Revista Rua

2019-06-21T17:07:46+00:00 Opinião

NOITE D – Despojamento e Dignidade

Sociedade
Afonso Castro
Afonso Castro21 Junho, 2019
NOITE D – Despojamento e Dignidade
Sociedade

A Great Windmill Street, no Soho, em Londres, não é uma rua que tenha, por si só, razões para se destacar. Não é uma dessas ruas ou avenidas emblemáticas por terem aparecido num filme ou por terem sido referenciadas num best seller. Mas foi palco e cenário da maior lição sobre despojamento e dignidade que já tive, e é por isso que me recordo tão bem desse lugar.

Estávamos em 2016. Agosto. Era domingo, quase nove da noite, e pela zona do Soho sobravam poucos sítios abertos para se jantar. Entre virar aqui e ali, dei com uma rua estreita ainda com alguns pubs e estabelecimentos abertos. Londres não é uma cidade conhecida pela sua enorme oferta gastronómica, por isso, jantar numa cadeia de restaurantes internacional que serve rapidamente noodles com ingredientes à escolha pareceu-me bem. Para além disso, aquela rua era sossegada e agradava-me o contraste com a azáfama noturna da Shaftesbury Avenue logo ali ao lado.

O Wok To Walk onde decidi jantar tinha uma montra de vidro com vista para um antigo night club, nessa altura em obras, com andaimes desde o passeio até ao último andar. Junto à montra, havia um balcão e bancos altos para compensar a falta de mesas. Para além dos dois atendentes, havia apenas mais um casal de ingleses calmamente a comer a sua refeição, enrolando os noodles em garfos de plástico. Enquanto isso, eu decidia-me sobre o que pedir.

Imagem ilustrativa

No meio da minha indecisão e do burburinho do óleo a borbulhar nas woks e da música ambiente, entrou pela loja a responsável pela maior lição de desapego e dignidade que já me deram até hoje. Era uma mulher, tipicamente inglesa, loira e de olhos de um azul ténue e límpido. Ninguém naquele Wok To Walk pareceu reparar nela com grande atenção. Eu, o turista, não estava habituado a ver tal coisa. Fiquei fascinado com a imagem daquela mulher com não mais de trinta anos. Trazia vestido um pijama velho e gasto, daqueles completos dos pés à cabeça. Estava descalça. E nos pés misturava-se o negro da sujidade com o pálido da pele.

Entrou e eu nem percebi de onde tinha aparecido. Quando reparei nela, já estava ao balcão a impor a sua vontade de cliente igual a todos os outros. Dizia: eu disse que não queria cebola no meu pedido, eu pedi especificamente sem cebola. Os atendentes, calculo eu que já no fim do seu turno, protestavam e argumentavam contra. Mas, vencidos pelo cansaço de final de dia e pela serenidade daquela mulher convicta do seu direito a um pedido sem cebola, pegaram-lhe na refeição que vinha dentro de uma caixa e apressaram-se a remediar a situação.

Gostava de ter visto a minha expressão através dos olhos de outra pessoa ou de um espelho. Sei que estava encostado ao balcão, imóvel e a tentar disfarçar para não me verem descaradamente a seguir com os olhos tudo o que se passava. No meu país, os sem-abrigo, viajantes sem dinheiro, aqueles que pedem nas ruas, não são assim. Mas eu também não sabia o que era aquela mulher. Até podia ser uma escolha, viver assim. Só que no meu país as pessoas com aquele aspeto pedem-nos dinheiro diretamente, dobram-se a uma simpatia necessária e de ocasião para conseguirem uma moeda, escrevem frases em bocados de cartão, mostram fotos da família que alegam estar no limiar da pobreza. No meu país, a pobreza é triste e decadente. Em todo o mundo, a pobreza é triste e decadente. Mas ali, na Great Windmill Street, no meio de Londres, aquela aparente pobreza era digna, serena, simples e quase-alegre.

Ao mesmo tempo que balbuciava palavras, tentava contar as libras que tinha na carteira. Sei que antes que eu conseguisse pronunciar alguma coisa em concreto, ela me perguntou se eu precisava de algo, se precisava de ajuda. Outro murro no estômago, outra incompreensão, outra pedrada no charco.

Enquanto esperava a emenda no seu pedido, a mulher de cabelos loiros a contornarem-lhe finamente o rosto circular e bolachudo parecia uma criança, leve de tristezas ou preocupações. Abanava-se ao som da música ambiente e os seus pés descalços batiam devagarinho no chão ao ritmo do corpo. E não nos olhava desconfiada. Não nos olhava de lado. Não nos olhava sequer. Gostava de saber de onde veio, quem é, o que a levou a andar pelas ruas de Londres descalça e em pijama. Mas talvez não seja suposto eu saber. Nem é de todo suposto eu, arrogantemente, me dar ao prazer de imaginar.

Finalmente deram-lhe o que tinha pedido. Ouvi um thanks! sorridente e vi-a atravessar a rua para o outro lado, para o lado do antigo night club em obras. Agora não estava distraído nem desprevenido, agora eu sabia de onde ela tinha vindo e para onde tinha voltado. Aquela mulher estava a morar numa tenda montada debaixo dos andaimes das obras. Assim que mergulhou na penumbra daquele lado da rua, vi-a sentar-se à boca da tenda e começar a comer os seus noodles fumegantes.

Dizem que nós portugueses estamos sempre prontos a ajudar. Que somos um povo solidário. Creio que muitos outros povos são também assim ou que tal característica nem sequer tem a ver com o povo. Somos como somos. E eu não sei, nem quero saber pois não é importante, mas algo me impeliu a atravessar a rua naquele instante e cheguei ao pé daquela mulher e, num inglês tão desajeitado como os meus gestos, quis dar-lhe qualquer coisa. Ao mesmo tempo que balbuciava palavras, tentava contar as libras que tinha na carteira. Sei que antes que eu conseguisse pronunciar alguma coisa em concreto, ela me perguntou se eu precisava de algo, se precisava de ajuda. Outro murro no estômago, outra incompreensão, outra pedrada no charco. Eu queria ajudá-la, queria impor-lhe umas libras a mais no património e aquela mulher mal me viu a aproximar ofereceu a sua ajuda ilustrada por um sorriso gigante, sem nada esperar em troca. A Great Windmill Street é uma porta para outra dimensão, pensei eu.

Imagem ilustrativa

Quando finalmente me consegui expressar e ela percebeu que a queria ajudar, disse-me que não precisava de dinheiro. A seguir, continuou a sorrir e mostrou-me umas quantas libras na mão, trocos. Disse-me: “é mais do que suficiente”. Do que me lembro, acho que me despedi com um sorry cabisbaixo e voltei para dentro do Wok To Walk.

Mais tarde, enquanto jantava, o casal que estava a acabar de comer, fez conversa e perguntou-me o que tinha ido eu fazer junto daquela mulher. Disse-lhes, ainda atabalhoadamente, que tinha tentado dar-lhe algum dinheiro. Responderam-me “isso é muito bonito da tua parte” e a seguir só me lembro de os ver de mão dada a descer a rua em direção à Shaftesbury Avenue.

Nesse momento, lembro-me de ficar abalado pela terceira vez naquela noite. Ao fundo da Great Windmill Street viam-se já as luzes dos teatros e dos anúncios luminosos pendurados nos prédios. A alguns metros de onde eu estava, havia outro mundo. Ali tão perto da tenda daquela mulher e tão perto da escuridão dos andaimes, passavam mulheres em vestidos justos e brilhantes, homens de óculos de massa, barba feita e sapatos engraxados, famílias inteiras bem vestidas e arranjadas. Era a prova viva da dicotomia social que tanto me falaram nas aulas de História e Sociologia. Mas na expressão daquela mulher não havia amargura nem o mínimo sinal de luta. Aparentava estar completamente em paz e talvez para ela o mundo fosse, durante aquela noite, apenas a sua tenda e os seus noodles sem cebola.

Uns dias depois voltei a Portugal. Apesar deste episódio se ter passado em 2016, não me largou mais. É que aqui diz-se muito que somos invejosos, que temos sempre o olho no que o vizinho do lado tem e nós não. Mas aquela noite, de certa forma, vacinou-me contra essa tal nossa inveja genética. Arrisco-me a dizer que, qualquer um de nós, numa situação semelhante à daquela mulher, sentir-se-ia humilhado e vencido, com uma ponta de inveja dos outros ali a passar quase ao lado, numa condição aparentemente melhor que a nossa. Pois a lição que me foi dada é que a dignidade, o que somos e o que transmitimos aos outros não pode ser ditado pela nossa imagem, pelo nosso estatuto ou pelo ambiente que nos rodeia. O que está em jogo é sermos quem somos, simplesmente por ser e apesar de tudo, só nos devendo afetar aquilo que nos realmente transforma em melhores pessoas.

Sobre o autor:
Nasceu em Lisboa há vinte e dois anos. Estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Escreve por aí em blogs e cadernos desde a adolescência. Em 2018, lançou um livro de poesia (Os Consulentes) pela editora Urutau. É fã incondicional de autores como Bukowski, Jack Kerouac e Anthony Frewin.

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