Revista Rua

2020-08-13T10:18:21+00:00 Opinião

Notas para a compreensão da minha vida – I

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
13 Agosto, 2020
Notas para a compreensão da minha vida – I

Moro numa parte do Porto que o tempo deixou intocada: o jardim do Marquês está repleto de reformados a jogar à sueca,

(são os mesmo de quando tinha cinco anos, tenho a certeza)

a Rua de Costa Cabral é um corredor de mercearias, retrosarias, cafés pequenos, uma ou outra loja de roupa e, para mim, o seu marco de suma importância, é a danceteria Júlio Deniz.

(não confundir com Júlio Dinis, que não é para aqui chamado)

No seu auge, foi uma das grandes salas de cinema da cidade do Porto, a par do Coliseu e do Cinema Batalha, mas, desde que me conheço por gente, é o palco de matinées dançantes que atraíam multidões de todas as partes. Quando se passava à porta ouviam-se ecos de concertinas, tangos em versões modernas e slows melosos – ecos estes que aumentavam enormemente de cada vez que alguém saía ou entrava do salão, depois a porta tornava a abafar o som. As senhoras usavam blusas de licra em padrões tigresa,

(que, por sua vez, podiam ser em tons de rosa, azul ou verde)

sapatos de salto ou sandálias de cunha e vestidos impróprios para cardíacos. Os senhores, por seu lado, vestiam calça clara com blazer vermelho, branco ou em tons mais escuros, desde que, caso a escolha recaísse sobre estes últimos, a camisa ou o lenço de bolso fossem num tom adequado aos trópicos. Cá fora, nos intervalos do baile ou na pausa para fumar, ajeitavam o cabelo com um pente de bolso e colocavam óculos escuros modelo aviador, por cima dos quais lançavam olhares de matador às senhoras que passavam. Alguns recém-chegados espiavam da entrada, tentando entender os hábitos da comarca, censurando ou aprovando as indumentárias com acenos de cabeça verticais ou horizontais. Como o baile decorria euforicamente e os slows estavam reservados para o fim, os intervalos galgavam minutos ao ritmo acelerado de leques ou no compasso mais lento dos lenços de bolso a enxugar suor nas têmporas. No fim, saíam todos em passo calmo, com sorrisos mais ou menos custosos, em direcção da paragem do autocarro ou do parque de estacionamento, mas, sublinhe-se, sempre felizes, em par, em grupo ou sozinhos. Por isso, se tudo correr dentro dos conformes,

(expressão que sempre me espantou, uma vez que não faço ideia do que seja algo que corre dentro dos conformes ou fora deles)

irei passar as tardes da minha velhice a dançar tangos enérgicos, com um sorriso de orelha a orelha – passem por lá daqui a uns quarenta anos e vejam se não estarei lá plantado, de pente na mão, a espreitar por cima das minhas dioptrias.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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