Revista Rua

2020-09-22T16:18:59+00:00 Opinião

Notas para a compreensão da minha vida – II

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
22 Setembro, 2020
Notas para a compreensão da minha vida – II

No café onde vou depois de jantar costumo encontrar um senhor que chega por volta da mesma hora que eu e que possui um entendimento do mundo que poucas pessoas têm. Tem um bigode de dimensões superiormente respeitáveis e espia o mundo por cima de uns óculos carregados de dioptrias, num silêncio de sacristia, que apenas interrompe para proferir afirmações decisivas

(sem nunca se estender em demasia)
acerca dos mais variados temas. Há umas semanas, depois de, sentado num trono de três degraus da entrada de um prédio, ter escutado uma das cozinheiras ao telefone com a família, perguntou

– Agora a viagem para Moçambique faz-se de barco ou de avião? ao que a senhora respondeu, de sobrancelhas confusas

– De avião, claro
seguindo-se uma curta dissertação acerca de navegações marítimas, dobrar o Cabo das Tormentas não é para qualquer um mas, felizmente, já não se fazia a viagem na caravela de Bartolomeu Dias e, para além disso, o avião faz a coisa mais a direito, o que poupa o viajante a uma série de incómodos. Depois disto seguiu-se um silêncio de concordância de ambos, o que garantia a certeza do que foi afirmado. Dentro de poucos instantes afirmou que façanha maior do que os Descobrimentos só mesmo a teoria da relatividade geral, o que espantou os presentes até que um deles lhe pousa a mão no ombro e diz

– Senhor Pedro, que poço de sabedoria ao que ele responde

– Senhor não me chamem senão ainda me convenço que sou um
o que foi ainda mais surpreendente para a senhora da cozinha e para os senhores em torno. Outro dos seus traços impressionantes é o facto de passear um pequeno rádio a pilhas onde ouve, sem falhar uma edição, o 5 minutos de jazz. Nos minutos restantes ouve a meteorologia e desliga o aparelho enquanto caminha na direcção de algum sítio que desconheço. Na noite seguinte lá está no seu trono, admirando as estrelas e o céu na calma de quem tudo entende e pouco fala. José Duarte fez o jazz entrar na casa das pessoas, o senhor Pedro faz o jazz entrar pela noite dentro sem que se perca uma nota.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: