Revista Rua

2021-06-30T10:49:46+01:00 Opinião

Notas para a compreensão da minha vida – III

Crónica
Francisco Santos Godinho
30 Junho, 2021
Notas para a compreensão da minha vida – III

A minha segunda educação iniciou-se por idas ao Marquês e à Baixa. Na baixa o ceguinho da concertina que tocava de queixo apontado aos telhados, juntamente com solícitas figuras de casaco comprido cujo forro continha riquezas de relógios e óculos de sol em número inatingível, o salão de chá Império repleto de rostos em género estalactite, pendendo para o interior de chávenas de meias de leite, o Majestic e o seu pianista que adoçava cafés e chás com jazz, o porteiro do Grande Hotel, de farda vermelha, inclinado para baixo a cumprimentar a calçada, o mercado do Bolhão,

(onde me introduziram ao mais requintado calão)
as ruelas repletas de ilhas construídas na vertical, já tão vazias, vizinhos antigos, as residenciais manhosas preenchidas de sorrisos adornados de carmim e caracóis de fumo em torno dos caracóis das permanentes, a senhora que me oferecia ovos de chocolate na confeitaria por baixo de minha casa, tão amável, tão distante agora, provavelmente não a vejo há vinte anos. Uma ou outra coisa lá se manteve: o coreto do Marquês ainda lá está, com as agradáveis casinhas de banho no subsolo, oferecendo um aliviozinho a poucos degraus de distância,

(minto, entretanto fecharam-nas)
a igreja também lá está, a Santa Rita também, o campanário já foi reparado depois de se ter desconjuntado com uma tempestade, a pensão, outra das mais importantes instituições locais, mantém-se inalterada, de porta desbotada e com um engenhoso sistema para os mais esquecidos que lá vivem: se se vêem impedidos de regressar por não terem chaves, basta gritar que alguém as atira da varanda – o mesmo sistema vale para bonés, casacos, cachecóis e um segundo par de calçado que, por algum motivo, foi entregue de forma expedita. Todas estas imagens me são extremamente benévolas e próximas e majestosas, existem num altar interior do qual nunca sairão.

(altar esse que está longe de ser descrito em extensão – é o meu reduto imensurável) Com sorte, não saio dos pés desse pedestal – será o meu eterno rumor de infinito.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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