Revista Rua

2019-09-27T17:01:05+01:00 Cultura, Música

Nova Arcada Braga Blues: quando o Blues chega à cidade

... e contagia o ambiente sem pedir autorização!
Nico Guedes, Budda Guedes, Alex Liberalli e Micha Rudowski, mentores do festival ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira27 Setembro, 2019
Nova Arcada Braga Blues: quando o Blues chega à cidade
... e contagia o ambiente sem pedir autorização!

A terceira edição do Nova Arcada Braga Blues, um festival dedicado ao Blues que toma de assalto vários espaços da cidade de Braga, regressa já a 29 de setembro e prolonga-se até 11 de outubro. São vários concertos de artistas nacionais e internacionais, jam sessions e workshops organizados com um único propósito: mostrar ao público o que é, realmente, o Blues. A RUA foi conhecer a génese deste festival que conta com o apoio do centro comercial Nova Arcada e deu a palavra a Budda Guedes, Nico Guedes, Alex Liberalli e Micha Rudowski, os mentores deste festival.

 

Em primeiro lugar, gostaríamos de perceber como é que surgiu a ideia da criação de um festival de Blues na cidade de Braga. Como é que tudo começou?

Micha – Tudo começou há quatro anos, quando eu e o Budda Guedes fomos até Baixa da Banheira para assistir ao BB Blues Fest. Na viagem de volta, eu perguntei ao Budda: “Porque é que não fazemos uma coisa destas em Braga?”. E decidimos começar a trabalhar. Demorámos um ano a organizar todos os pormenores para avançar com este festival. Em 2017 arrancámos com a primeira edição.

Budda – Sim, basicamente foi isso. A Blues Night desse festival na Baixa da Banheira inspirou-nos de alguma forma. Na viagem de carro, rumo a Braga, já começámos a congeminar aquilo que viria a ser o Braga Blues – que depois se transformou em Nova Arcada Braga Blues, com a entrada do Nova Arcada como principal patrocinador deste festival. Aproveito desde já para agradecer o grande apoio do Nova Arcada, que decidiu acompanhar-nos nesta aventura. Inicialmente, pensámos em organizar duas noites no Theatro Circo, que era a grande sala de Braga. Mas, depois, pensámos: “E que tal se fizéssemos um warm up na quinta-feira? E se também fizemos uma jam session do festival? E que tal na terça-feira fazermos algo no Setra?”. De repente, estávamos com uma semana de festival. Aconteceu tudo assim, numa tentativa de levar o festival à cidade, espalhando os eventos em vez de os concentrar nas típicas salas de espetáculo. Assim conseguiríamos levar o Blues a mais pessoas!

A mais pessoas e a mais espaços da cidade de Braga. Falamos de que tipo de espaços?

Budda – O Setra, como já referi, o Pelle, o Caldo Entornado… Basicamente, criámos uma rede de espaços nocturnos e pessoas interessadas em fazer parte do festival.

Micha – E conseguimos vários sponsors ao longo do tempo. São empresas de Braga, que vestiram a camisola connosco e contribuem financeiramente para o festival. A Câmara Municipal de Braga é também um importante apoio.

Organização do Nova Arcada Braga Blues fotografada no Setra ©Nuno Sampaio

Por que razão acharam que esta ideia de um festival de Blues resultaria tão bem em Braga?

Budda – Porque o Blues é incrível! (risos) É uma festa de música e pessoas. O Blues resulta em qualquer lado do mundo porque é uma música para pessoas. É uma música feita para pessoas, não é uma música feita para entendedores de um subgénero muito complexo. Não é necessário saber nada sobre a história do Blues para ir ver um concerto de Blues.

Nico – Mas penso que é importante referir que também há um contexto da cidade de Braga que fez com que fosse possível realizarmos este festival: Braga evoluiu bastante em termos de bares e locais noturnos. Nós percebemos isso porque nós, enquanto Budda Power Blues [banda dos irmãos Budda e Nico Guedes] tocamos em vários bares, o Micha também… Percebemos que, de facto, há público para música ao vivo e há bares que já apostam em música ao vivo durante o ano todo. Então, por que não incluí-los no festival e dar-lhes os parabéns por fazerem isso durante o ano todo? Foi isso que fizemos: chamámos esses locais para um cartaz grande!

Budda – Porque o Blues é um género de juke joint, é um estilo que nasceu em pequenas comunidades, nunca foi um género de estádio (apesar de já o ser às vezes). Portanto, faz todo o sentido trazer o Blues para os clubes, para os bares de música ao vivo e dar aos bracarenses e visitantes o privilégio de assistirem a concertos de músicos incríveis a meio metro de distância… o que torna tudo muito mais mágico!

Alex – Este é realmente um festival de Blues, apesar de as pessoas continuarem a ter a tendência de confundir um bocadinho e colocar o Jazz neste universo. Por isso, a nosso ver, a existência de um festival dedicado ao Blues é muito importante para formar o público. Queremos dar a conhecer às pessoas o que é realmente o Blues!

O Nova Arcada Braga Blues é já o maior festival de Blues do nosso país, em termos de duração. O feedback do público transpôs as vossas expectativas?

Budda – O Nova Arcada Braga Blues já é um marco no Blues nacional e o nosso objetivo sempre foi fazer com que as pessoas viessem aos concertos sem saber quem vinha atuar: porque o selo do Nova Arcada Braga Blues já seria uma garantia de que o concerto seria incrível! E assim tem sido todos os anos. Toda a gente que tem vindo, volta no ano a seguir, o que é fantástico para nós!

Mas torna tudo muito mais desafiante, certo?

Budda – É tramado! (risos)

Micha – Sim e, por isso, temos incluído novos destaques na programação. Este ano, por exemplo, vamos fazer workshops nas escolas secundárias, tentando mostrar aos mais jovens o que é o Blues.

Budda – E, importante: todos os participantes dos workshops vão poder ter bilhetes gratuitos para os concertos que são pagos, no Theatro Circo e no Altice Fórum Braga.

Nico – Porque queremos mesmo criar público! Essa é a grande bandeira do Nova Arcada Braga Blues.

“No seguimento de formar públicos, a nossa preocupação é criar uma programação que seja muito diversa. Não queremos ter apenas Blues de Chicago de 1950, que é um dos clichés. Há vários géneros de Blues e procuramos dar-lhes voz aqui.”

Nesta edição, o que é impossível perder?

Micha – Tudo! (risos) Porque há tanta coisa diferente!

Nico – Os destaques são, sem dúvida, todos diferentes e são imperdíveis.

Budda – No seguimento de formar públicos, a nossa preocupação é criar uma programação que seja muito diversa. Não queremos ter apenas Blues de Chicago de 1950, que é um dos clichés. Há vários géneros de Blues e procuramos dar-lhes voz aqui. Até ao novo Blues, ao que se está a fazer de novo. Nessa lógica, ressaltava então os quatro eventos principais do festival: Vamos falar de Blues com João Cabeleira, uma rubrica em que eu entrevisto um músico que normalmente não é associado ao Blues; Diunna Greenleaf, um standard do Blues americano, com um vozeirão incrível; Portuguese Blues Reunion é mais uma iniciativa desta edição do festival, em que eu convido o Mário Laginha e o Frankie Chavez para, juntos, tocarmos três músicas cada um (posso também já desvendar que vai haver espaço para um tema inédito). Depois, a fechar a programação, no Theatro Circo, destaco o concerto de Paul Lamb & The King Snakes, um harmonica bluesman do Reino Unido.

É impossível não pedirmos uma análise vossa ao panorama cultural da cidade de Braga. Como veem este crescente leque de experiências culturais e de espetáculo a ter lugar em vários espaços da cidade?

Alex – Eu acho que esta dinâmica começou em 2012, com o público a mostrar-se mais ativo e participativo. Provavelmente graças ao rótulo Braga Capital Europeia da Juventude 2012.

Micha – Também a entrada do novo executivo municipal trouxe mais movimento à cidade, mais energia positiva.

Budda – A saída da crise também impulsionou a vontade dos bracarenses em fazer coisas diferentes.

Nico – O que nós notamos é que há aqui uma geração de pessoas que, de facto, tem o intuito de fazer… e faz! Se calhar, há agora mais armas para o fazer, mais espaços. Mas não podemos esquecer que os espaços são as pessoas que os criam, basta olhar para o exemplo do Setra e do Pelle. Há pessoas que se esforçam e os resultados estão à vista!

Entrevista realizada no Setra ©Nuno Sampaio

Como mentores, cada um de vocês tem a sua tarefa?

Alex – É engraçado porque cada um de nós tem a sua tarefa sem saber que tem! (risos)

Nico – Este ano já sabemos todos qual é a tarefa de cada um, mas no início era só intuição.

Alex – Sobretudo, o que ajuda à realização deste festival é o facto de nós, enquanto músicos, já trabalharmos juntos há muito tempo e já sabermos o que um músico gosta ou o que o público prefere. Já sabemos a forma como os músicos gostam de ser tratados – porque é a forma como nós gostamos de ser tratados! O que acontece no nosso festival é que os artistas envolvidos são sempre bem tratados, sejam eles cabeças de cartaz ou não. Queremos que tudo dê certo!

Nico – Agimos de forma natural no festival: o Budda trata da parte áudio/musical, especialmente focando-se na programação, a Alex trata da promoção e eu trato do trabalho gráfico e visual… Já o Micha é o grande motor do festival porque conhece bastante gente e fica com a tarefa da produção executiva, por assim dizer.

Budda – O Micha é o nosso Tom Cruise! (risos)

O Micha provavelmente já está a pensar na próxima edição então…

Micha – Já estamos todos! (risos)

Budda – O Micha é que tratou de fazer acontecer o festival!

Micha – Na verdade, somos uma equipa e, hoje em dia, sem uma equipa, nada funciona. Individualmente não conseguiríamos fazer algo nesta escala.

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