Revista Rua

2019-01-04T10:45:52+00:00 Bússola, Viagens

“O Alma de Viajante é o espelho do que eu sou”

Filipe Morato Gomes é o homem por detrás do blog Alma de Viajante.
Dunas de Ubari, Deserto Sahara, Líbia ©Alma de Viajante
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira3 Janeiro, 2019
“O Alma de Viajante é o espelho do que eu sou”
Filipe Morato Gomes é o homem por detrás do blog Alma de Viajante.

É natural de Matosinhos, mas há muito que o mundo passou a ser a sua casa. De viagem em viagem, Filipe Morato Gomes dá a conhecer os mais belos locais do planeta através do seu Alma de Viajante, um blog de viagens que lhe dá a liberdade de “voar”, guiado pelo impulso e pela curiosidade. Com 47 anos e duas voltas ao mundo na bagagem, Filipe Morato Gomes apresenta-nos um roteiro chamado Terra.

Filipe Morato Gomes na Síria ©Alma de Viajante

Vamos voltar ao início deste seu percurso como viajante profissional. O que o incentivou a viajar?

Na verdade, comecei tarde a viajar. Tinha 33 anos quando mudei de vida e decidi dar a minha primeira volta ao mundo. Recordo com saudade as conversas com o meu avô materno, que falava apaixonadamente das suas longas viagens à Amazónia ou pela linha transiberiana, num tempo em que o ato de viajar era muito mais aventureiro do que nos dias de hoje. Julgo que esses momentos, juntamente com as viagens de carro que fiz por Portugal, Espanha e França, enquanto adolescente, com os meus pais, terão aos poucos ajudado a fazer germinar em mim este desejo de conhecer o mundo.

De acordo com a informação do seu blog, já fez duas voltas ao mundo. Que mundo é este que o Filipe encontra em cada viagem? O que mais o deslumbra em viagem?

Encontro um mundo cheio de gente boa e hospitaleira, e é isso mesmo – as pessoas que encontro nas minhas viagens – que mais me fascina.

“Por natureza, sou mais ave do que árvore – gosto de “voar” e tenho poucas raízes”

Já visitou países mais do que uma vez. A cada viagem nota grandes diferenças nesses locais? Como é que o mundo se tem globalizado – ou não – a seu ver?

Tirando o caso específico do Irão, onde já fui mais de 20 vezes, não tenho por hábito voltar aos mesmos locais. Volto aos mesmos países, sim, mas para tentar conhecer locais novos. Nas vezes em que regressei aos mesmos destinos, quase sempre notei uma crescente influência do turismo – para o bem e para o mal.

Se, por um lado, todos têm direito a almejar melhores condições de vida – e muitas vezes o turismo proporciona rendimentos que, de outra forma, muitas famílias seriam incapazes de conseguir -, por outro, as questões ambientais, a utilização excessiva de recursos naturais resultante da atividade turística (muito visível em algumas ilhas um pouco por todo o mundo), e até a saturação de turismo em algumas cidades europeias, fazem com que seja necessário repensar o modelo e tentar encontrar pontos de equilíbrio.

Quanto à chamada globalização, é uma pena que muitos destinos estejam a perder a sua identidade em nome do tal “progresso”. Veja-se o caso de Lisboa…

O Alma de Viajante é um blog reconhecido, onde podemos encontrar várias sugestões de roteiros para viagem. O Filipe é como se fosse um real guia turístico à distância de um clique?

Naturalmente, só escrevo sobre locais que visitei durante as minhas viagens. Regra geral, tento partilhar experiências que possam ser replicadas pelos leitores, inspirando-os a descobrir os destinos que escolhem visitar de uma forma mais profunda. Costumo dizer que, mais do que ver, é preciso viver os lugares – e é essa vontade de explorar, de sentir os lugares e ir para além do óbvio que tento incutir nos leitores.

Não sou, no entanto, um verdadeiro guia turístico, na medida em que, apesar de partilhar dicas úteis aos leitores, não abordo todas as questões práticas relacionadas com as viagens – além de que seria impossível manter atualizadas todas as informações úteis, como horários de transportes, por exemplo, em centenas de destinos distintos espalhados pelo mundo.

Ainda assim, no sentido em que ajudo as pessoas a organizarem as suas viagens, o Alma de Viajante pode servir de guia. Um exemplo clássico são os roteiros detalhados que publico, com base nas minhas viagens, e que muitas vezes servem de inspiração para as viagens dos leitores – casos paradigmáticos, de grande sucesso no blog, são o roteiro do Japão, o roteiro do Sri Lanka e, especificamente criado para os muitos leitores brasileiros que acompanham o blog, um curto roteiro de 7 dias em Portugal.

Não menos importante, para além de artigos sobre destinos, tento também publicar textos mais inspiracionais, que motivem as pessoas a viajar, a perder os medos, quem sabe até terem coragem de ir atrás dos seus sonhos e serem mais felizes.

De todas as viagens – e já foram muitas -, consegue indicar-nos alguns dos locais que, pelo menos uma vez na vida, devêssemos visitar? O que mais belo já encontrou em viagem?

O Irão, pelas pessoas. Acho que toda a gente deveria dar a oportunidade de verificar o quão errados podem ser os preconceitos que todos temos sobre o Irão.

Em termos de beleza natural, tenho também duas grandes paixões: a Nova Zelândia, no hemisfério Sul, e a Islândia, no hemisfério Norte. Para quem gosta de atividades ao ar livre, são dois dos destinos mais incríveis que já tive oportunidade de conhecer. Falta-me a Patagónia, que seguramente entrará nesta lista de preferências logo que tenha oportunidade de conhecer.

Nas suas dicas de viagem, encontramos também sugestões consideradas “fora da caixa”. É importante conhecer os destinos além do óbvio? É aí que a verdadeira aventura começa para um viajante?

Na minha opinião, há lugar para todo o tipo de viagens. Se alguém quiser ir a Paris para conhecer apenas a Torre Eiffel e o Museu do Louvre, continua a ser melhor do que ficar em casa. O que eu tento fazer, no entanto, é inspirar as pessoas  a irem para “além do óbvio”, como referiu, a entrarem nos cafés de bairro, a comerem em tascas, a contribuírem para a economia local em vez dos grandes empreendimentos turísticos e multinacionais.

Quantas vezes as melhores experiências de viagem acontecem porque o viajante se deixou ir, sem medos, guiado pelo impulso e pela curiosidade?

“Mais do ter muito dinheiro, para viajar é preciso, acima de tudo, fazer opções que permitam concretizar esse objetivo, por oposição a continuar a dizer “quem me dera” de forma inconsequente”

É um homem de família, pai com filhos. De que forma é que uma vida em viagem pode ser possível?

Conciliar família e viagens é a grande dificuldade que sinto no meu quotidiano. Principalmente desde que tenho filhos. “As vidas de viajante e de ‘homem de família’ são realidades tão distantes que por vezes se atropelam”, escrevi em tempos. E é verdade. Por natureza, sou mais ave do que árvore – gosto de “voar” e tenho poucas raízes.

Manter um estilo de vida intimamente ligado ao ato de viajar só é possível tendo a cumplicidade de uma companheira compreensiva – de outra forma seria totalmente impossível.

É impossível não perguntarmos sobre os investimentos necessários para viajar. De que forma é que o Filipe angaria recursos de momento?

Há alguns anos escrevi uma crónica para o Diário de Notícias intitulada Viajar não é coisa de ricos, onde explico que, mais do ter muito dinheiro, para viajar é preciso, acima de tudo, fazer opções que permitam concretizar esse objetivo, por oposição a continuar a dizer “quem me dera” de forma inconsequente.

Dito isto, desde há muitos anos que gerir o Alma de Viajante é o meu trabalho, pelo que o rendimento advém do blog e de tudo o que faço em paralelo, ligado às viagens, como liderar viagens para a agência Nomad (atividade que entretanto suspendi) e dar workshops de Escrita de Viagens.

Por fim, estou neste preciso momento a preparar cursos online, com dicas passo-a-passo sobre como criar um blog e assim ajudar outras pessoas a ganhar dinheiro com a criação de conteúdos resultantes das suas viagens. No fundo, contribuir para que mais gente tenha coragem para arriscar e ir atrás dos seus sonhos.

“Sinceramente, não me imagino a fazer outra coisa. O Alma de Viajante é o espelho do que eu sou, do que eu sei fazer”

Gostávamos de lhe pedir algumas sugestões de viagens que os nossos leitores devam fazer durante este inverno. O que nos pode indicar e porquê?

Escolher destinos é algo muito pessoal, pelo que tudo o que eu possa dizer pouca utilidade teria para cada um dos leitores. Posso, no entanto, indicar a minha próxima viagem de inverno e uma outra que gostaria de fazer nesta época do ano. São elas a Tanzânia, onde irei em fevereiro, incluindo uma passagem pelas praias de Zanzibar e um safari no Serengueti; e a Patagónia, que sonho conhecer há muitos anos. Dois destinos totalmente distintos, mas muito recomendáveis durante o inverno europeu.

Por último, uma terceira sugestão “fora da caixa”: ver auroras boreais no hemisfério Norte, seja na Islândia ou em locais como Tromsø, na Noruega, tido como um dos melhores locais para observar este fascinante fenómeno da Natureza.

Dizem que há pessoas que nascem com o gene das viagens. O Filipe nasceu com uma alma de viajante? Imagina-se a ser algo que não um viajante nato?

Sinceramente, não me imagino a fazer outra coisa. O Alma de Viajante é o espelho do que eu sou, do que eu sei fazer. Mistura o ato de viajar com a escrita, a fotografia, o design, o marketing e alguma programação. É a minha grande paixão profissional.

Ainda assim, talvez chegue o dia em que alguma circunstância da vida me faça mudar de ideias, mas, por agora, não me passa pela cabeça parar de viajar.

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