Revista Rua

2020-03-03T11:55:14+00:00 Opinião

O âmago das ruas

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
3 Março, 2020
O âmago das ruas
Fotografia ©Nuno Sampaio

Do âmago das ruas de Coimbra nasce muita arte e nem tudo é fruto do álcool de um modo pejorativo.

Por aqui respira-se muita cultura e vontade de fazer as coisas – na minha atual passagem vou conhecendo muitos artistas que vão desde escritores, poetas, músicos, ilustradores e tanto mais…

Tudo isto vem do âmago das ruas e grande parte da noite, que é um habitat natural para muitos de nós. Vergamos a voz às estrelas e temos a esperança que um dia o mundo repare em nós sem que seja tarde demais.

No entanto, às vezes é preciso ter em conta que pode ser mais que pouca gente repare em nós e que poucos nos leiam, mas que nos leiam verdadeiramente – ter um livro numa estante de supermercado que vai direto para a mesinha de cabeceira e consequentemente para a nuca do cérebro, até ao vértice do esquecimento.

Há 105 anos havia o lançamento da revista Orpheu e hoje em dia ainda há alguns a lutar pelo mesmo, sem deslocar a geografia do mapa. Isso causa uma comichão pequena no resto do país, porque há mais escritores, poetas e artistas para além da grande Lisboa.

Por Coimbra, onde Herberto Helder escreveu um poema numa das paredes da minha rua e foi meu vizinho em linhas temporais distantes. Também nos juntamos no antigo café Tropical, ou no café Moçambique, por vezes com passagens pelo intelectual café Liquidambar (e ainda a uns passos de distância no café Académico) e bebemos cervejas frescas, ou café nas ressacas matinais, enrolamos tabaco porque é mais barato. Puxamos de belos cadernos manchados de cafeína, empoeirados de cinza e com poemas sangrados ou folhas em branco aguardando a tinta.

Eu próprio fiz e faço parte desses círculos que ainda se vão reunindo pelos cafés sociais, onde junto de outro jovem poeta, com a idade paralela à minha, e criámos uma revista literária – a revista PROMETHEUS.

Com ou sem sucesso, pouco nos importa porque queremos somente escrever o que já faz parte nós, mesmo que somente para meia dúzia de leitores. Esses leem-nos e são mais que muitos livros vendidos.

A velha luta artística é uma revolução permanente que se renova diariamente. Aqui por Coimbra há muitos poetas pelas vielas a quem lhes basta um leitor para matar a fome do artista.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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