Revista Rua

2020-03-11T12:04:48+00:00 Negócios, Personalidades

O ano em revista, por Nuno Rogeiro

A análise do ano 2019 pelo comentador português.
Redação
Redação10 Janeiro, 2020
O ano em revista, por Nuno Rogeiro
A análise do ano 2019 pelo comentador português.

“Há um regresso de todos os países a um sistema de cada um por si”. Esta é talvez uma das ideias chave desta nossa conversa com Nuno Rogeiro, o professor, comentador e analista político que partilhou com a RUA as suas visões de 2019… com um pé já em 2020.

Em primeiro lugar, e convidando-o para uma análise rápida àquilo que nos rodeou durante o ano, gostaríamos que o Nuno nos apontasse o melhor e o pior de 2019.

O pior? O estado de menorização a que chegou o nosso exército de terra, a permanência de um fosso salarial gigantesco, a continuação de agressões ambientais – através do lixo e da poluição gasosa e auditiva – em cidades como Lisboa.

O melhor? A promessa de diminuição drástica da dívida nacional, a entrada de pequenos partidos no parlamento e as esforçadas missões das forças nacionais destacadas, especialmente na África Central, no Sahel e no Afeganistão.

2019 foi um ano marcado por eleições. Que balanço reteve dos resultados das recentes eleições e que antevisão nos faz para o próximo ano em termos políticos?

Um governo minoritário é sempre bom, no sentido em que precisa de escutar mais, executar melhor, negociar com cabeça e agir em torno de pontos de união. Infelizmente, começou mal num pormenor técnico: a incrível dimensão da equipa. Preferia muito menos ministros e secretários de Estado e a manutenção das funções técnicas dos atuais diretores gerais das várias especialidades.

“Um governo minoritário é sempre bom, no sentido em que precisa de escutar mais, executar melhor, negociar com cabeça e agir em torno de pontos de união.”

2019 foi também um ano de afirmação de Portugal no mundo, sobretudo em termos turísticos e de captação de empresas para o território nacional. Concorda? Considera que estamos num bom caminho ou há exigências que ainda não conseguimos colmatar para sermos um país atrativo, especialmente para empresas?

O turismo é ótimo, sobretudo se puder ser um turismo de qualidade, que deixe valor e não destrua. E se puder ser um turismo cultural, patrimonial e histórico, ainda melhor. A internacionalização é só uma palavra se não conseguirmos fixar em Portugal jovens qualificados que possam tornar as nossas escolas e empresas em entidades competitivas dentro e fora da Europa.

Em termos macroeconómicos e de crescimento financeiro, 2020 será um bom ano para Portugal? Porquê? Ou crê que surgirão surpresas desagradáveis (inesperadas)?

Não sou economista (embora o meu curso de Direito tenha tido várias cadeiras de Economia e Finanças), mas conheço as previsões nacionais e internacionais e atenho-me a elas. Todas realçam a ainda grande vulnerabilidade da economia nacional, sobretudo face a mercados tradicionais como o alemão e o britânico, que podem entrar em dificuldades. Por outro lado, uma diminuição significativa dos fundos de coesão da UE seria uma má notícia para o investimento público, ainda necessário em muitos sectores. Por fim, continuo a notar a ausência de um gabinete nacional de informação financeira, que guie os cidadãos nos seus gastos, no seu crédito e na sua poupança, e os salvaguarde dos tubarões do empréstimo fácil e irresponsável.

“Continuo a notar a ausência de um gabinete nacional de informação financeira, que guie os cidadãos nos seus gastos, no seu crédito e na sua poupança, e os salvaguarde dos tubarões do empréstimo fácil e irresponsável.”

Em termos internacionais, 2019 foi um ano de Brexit, de questões migratórias e de conflitos (sobretudo no Médio Oriente, mas também nos referimos ao aumento do clima de tensão entre grandes potências mundiais, como Coreia do Norte, Coreia do Sul, EUA e Rússia). Na sua análise, considera que estas questões continuarão por resolver em 2020?

Numa frase, é um mundo onde as alianças são hoje muito mais limitadas, e há um regresso de todos os países a um sistema – bom ou mau – de “cada um por si”. O Brexit preocupa-me sobremaneira, porque terá consequências diretas e indiretas para toda a Europa. Quanto às migrações, todos os países se colocam de acordo quanto à necessidade de fluxos sustentáveis, responsáveis e que possam resolver mais problemas do que aqueles que criam.

Muito se tem falado de “paradigma social”, ou seja, que vivemos numa sociedade cada vez mais pobre em termos de princípios, de valores, de envolvimento e preocupação com o próximo. O Nuno considera esta análise verdadeira?

Sim, o egoísmo é uma ameaça. Mas há muitos nichos de solidariedade e amor ao próximo, felizmente. Conheço vários, todos os dias.

Todos nós temos sonhos e, por isso, gostaríamos de perguntar ao Nuno, numa lógica de premonição, quais são as suas manchetes de sonho para 2020?

O Benfica a ganhar a Champions. Depois acordo e revolto-me.

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