Revista Rua

2018-05-03T10:58:46+00:00 Opinião

O cinema francês (I)*

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João Palhares
João Palhares
2 Março, 2018
O cinema francês (I)*

Em Julho de 1895, La sortie de l’usine Lumière à Lyon estreia em Paris. Hoje sabe-se que há várias versões e que a que constituiu a primeira exibição pública de cinema, pelo menos na Europa, se perdeu. Restam dois fotogramas. A descoberta da existência dessas várias versões permitiu provar categoricamente que os irmãos não filmavam apenas o habitual minuto para documentar a vida urbana ou os hábitos quotidianos. Filmavam-no depois de encontrar o melhor ângulo para descrever movimentos de pessoas, carros, cavalos e encenavam também esses movimentos, não com transeuntes incautos, mas colaboradores cientes do que estavam a fazer e com instruções para o fazerem. Veja-se a versão mais conhecida de La sortie, em que a gradação do movimento está pensada ao ponto de conter nos seus poucos segundos a saída de todos os empregados, primeiro completamente amontoados e depois mais dispersos, e o encerramento das portas da fábrica em que trabalham. É uma saída de trabalhadores encenada para sintetizar e representar todas as saídas de trabalhadores, em Lyon como no mundo. Louis Lumière era o responsável por estes filmes e pode-se mesmo dizer que se trata do primeiro realizador da história do cinema, já com todos os talentos e valências que é suposto um realizador ter.

Em 1968, Henri Langlois (co-fundador da Cinemateca Francesa com o realizador Georges Franju e o crítico Jean Mitry) e Jean Renoir (cineasta maior do cinema francês) sentaram-se com Éric Rohmer para discutir a herança dos Lumière em Louis Lumière, filme feito por Rohmer para a televisão francesa e produzido pelo Institut Pédagogique National, a Cinemateca Francesa e a Télévision Scolaire. Nesse filme (que será exibido na velha-a-branca no dia 9 de Março), uma autêntica aula de cinema, desenterram-se memórias que põem em causa a validade de supostas invenções e novidades contemporâneas (tanto dos anos sessenta como do nosso século), proclamadas ao desbarato por quem não quer, nem nunca quis olhar para trás para encontrar o que há de mais vibrante numa certa arte e que ainda nos pode ensinar lições práticas preciosíssimas para o aqui e para o agora. A mise en scène, problema encarado e estudado pela Nova Vaga francesa, já era um problema para Louis Lumière e a sua obra e dos seus assistentes irá inspirar e pesar de alguma maneira sobre todo o cinema francês (e não só, como é óbvio), de Georges Méliès a Jean-Claude Brisseau, passando por Jean Vigo, Renoir, Jacques Rivette, Rohmer, etc, etc.

Méliès, impressionado com a invenção dos Lumière, que não lhe quiseram vender nenhuma das suas câmaras, moveu mundos e fundos e criou a Manufacture de Films pour Cinématographes, canalizando o seu amor pela magia e pela fantasia em curtas maravilhosas.

* Nos próximos meses, o Lucky Star – Cineclube de Braga dedicar-se-á ao cinema francês, dividindo as suas sessões pela Sala 1 dos cinemas do Braga Shopping e pelo estaleiro cultural da velha-a-branca. Encontrem-nos no Facebook e estejam atentos.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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