Revista Rua

2018-05-03T19:19:08+00:00 Opinião

O cinema francês (II)*

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João Palhares
João Palhares
2 Abril, 2018
O cinema francês (II)*

No teatro Robert-Houdin em Paris (que comprou em 1888) e na recta final do século XIX, Marie-Georges-Jean Méliès encantava o público francês com os seus números de magia, quando assistiu às primeiras apresentações públicas dos filmes dos irmãos Lumière e dos seus operadores. Não conseguindo comprar a câmara e o projector a Louis Lumière, que lhe terá dito que o cinema não tinha futuro, pôs as mãos à obra e adaptou pessoalmente uma câmara que conseguiu comprar em Inglaterra, aplicando os seus talentos como mágico à medida que ia descobrindo efeitos possíveis em acidentes de projecção. Enquanto os anos iam passando, os efeitos de Méliès iam ficando cada vez mais sofisticados e abriam um oceano de possibilidades para a arte do cinema. Exposições multiplicadas, cadeiras automáticas, cenários rotativos e cheios de entradas secretas, calabouços mágicos… O génio de Méliès abria assim caminho para os grandes engenheiros do cinema, de Allan Dwan a Jacques Tati, de Buster Keaton a Pedro Costa.

A dupla herança dos Lumière e de Méliès foi muitas vezes posta em diálogo interno, começando por se dizer que os primeiros teriam inventado o documentário e o segundo a ficção (há já mais de cem anos, para verem a falsa pertinência em se discutirem as fronteiras entre o documentário e a ficção como se fosse uma coisa absolutamente nova. Quantos simpósios, quantas mesas redondas, este ano? Enfim), recusando-se depois essa noção e dizendo que foi ao contrário, que a ficção estava nos Lumière e o documentário em Méliès (e lembre-se um diálogo de La chinoise (1967) de Jean-Luc Godard, em que o personagem de Jean-Pierre Léaud rematava uma conversa perguntando “o que fez o Méliès na altura? Ele filmou a viagem até à lua. Méliès filmou a viagem do Rei da Jugoslávia ao presidente Fallières. Agora, podemos dizer, que eram reais acontecimentos da actualidade. Tu ris-te, mas é verdade. Ele criou os eventos da actualidade. Ele recriou os eventos da actualidade. Mas eram acontecimentos da actualidade. Eu diria até que Méliès é brechtiano. Não se esqueçam disso, ele era brechtiano.”), até aos dias de hoje, em que se dirá que os irmãos pioneiros são a cabeça do cinema, onde está alojada a alma, e Méliès o corpo, onde bate o coração. De uma coisa não há dúvida: devemos-lhes tudo.

Quem são os filhos de Méliès, no cinema? Jean Vigo, Sacha Guitry, Jean Renoir, Georges Franju, François Truffaut, Jacques Demy, Alain Resnais, Jean-Claude Brisseau, Léos Carax? Quem são os filhos de Lumière? Jean-Pierre Melville, Godard, Robert Bresson, Éric Rohmer, Jacques Rivette, Jean-Marie Straub, Danielle Huillet, Marguerite Duras, Jean Rouch? Fará sentido a divisão? Continuemos a nossa viagem…

* O Lucky Star – Cineclube de Braga continua a sua aventura pelo cinema francês, dividindo as suas sessões pelas salas de cinema do Braga Shopping (às Terças-Feiras) e pelo estaleiro cultural da velha-a-branca (às Sextas). Encontrem-nos no facebook e espreitem a programação.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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