Revista Rua

2018-08-24T12:42:33+00:00 Opinião

O conhecimento como recompensa

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
3 Setembro, 2018
O conhecimento como recompensa

O início de um ano letivo é como o ano novo. Ainda que não aguardemos pelas doze badaladas e uma mão cheia de passas que validem resoluções e desejos para o novo ano, o regresso às aulas também está carregado de otimismo e de boas intenções. Otimismo e intenções partilhadas por alunos e famílias, cada vez mais envolvidas na educação das suas crianças e jovens, visíveis no investimento que aquelas estão dispostas a fazer, quer em termos materiais, quer em termos de tempo.

De facto, existirá uma maior consciência da importância da educação, tendo a Economia contribuído, de forma determinante, para a fundamentação dessa importância, através da identificação e quantificação dos retornos individuais e sociais da educação. No âmbito dos retornos individuais, a análise centra-se predominantemente na quantificação do acréscimo salarial associado ao aumento da escolaridade dos indivíduos. Neste contexto, os resultados alcançados para a realidade portuguesa demonstram, de forma consistente, que compensa possuir um diploma de ensino superior. Ainda que, atualmente, esse não seja garantia de um emprego, a realidade mostra que os licenciados têm, em média, uma maior probabilidade de encontrar um emprego, com salários mais elevados e maior segurança. Já no caso dos retornos sociais, ou seja, para a sociedade, o impacto é analisado ao nível do contributo para o crescimento económico, fundamentando políticas públicas, designadamente em matéria de financiamento público da educação.

“Neste contexto, os resultados alcançados para a realidade portuguesa demonstram, de forma consistente, que compensa possuir um diploma de ensino superior. Ainda que, atualmente, esse não seja garantia de um emprego”

Estas análises surgem complementadas com a sinalização de benefícios não monetários associados a uma maior escolaridade, quer ao nível do indivíduo quer ao nível da sociedade, em áreas que extravasam o mercado de trabalho, como a saúde ou a participação cívica e política. Postulando a Economia que os agentes económicos reagem a incentivos, seria de esperar que, conhecidos os benefícios, a escola e a educação fossem substancialmente valorizadas e como tal se observasse uma predisposição generalizada para a participação e acumulação de conhecimento. De facto, desde o mais elementar nível de ensino, o bom desempenho da criança, e depois do jovem, é motivo de orgulho dos seus pais e encarregados de educação, dando origem, frequentemente, a uma recompensa material. Inclusivamente, o bom desempenho por parte da criança ou do jovem chega a ser instrumento de negociação, utilizado quer pelo aluno, quer pelos seus progenitores, para a obtenção ou concessão de privilégios (materiais ou não).

Ainda que racional, faria sentido pensarmos na bondade de tal recompensa enquanto incentivo promotor de um bom desempenho escolar. Arriscava-me a considerar que o conhecimento per se, construído na curiosidade da criança, estimulado e valorizado pela família, pela escola e pela sociedade ao longo do percurso escolar do indivíduo seria recompensa suficiente. Aliás, arriscava-me a considerar o conhecimento per se a melhor recompensa.  E, nesse caso, o bom desempenho escolar seria um mero corolário.

Sobre o Autor:
Economista, Universidade do Minho.

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