Revista Rua

2020-03-31T09:41:01+00:00 Opinião

O Corpo no Virtual ou Humanidade?

Sociedade
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
31 Março, 2020
O Corpo no Virtual ou Humanidade?

“Um passo crucial no sentido da união da Humanidade é reconhecer que os seres humanos têm corpos.” É isto que nos diz Yuval Noah Harari, escritor do célebre livro de que esta passagem foi retirada – “21 Lições para o Século XXI”.

Ora, o que agora se põe em causa são os efeitos psicológicos que o isolamento social da quarentena provoca no cérebro humano. Esta crónica não é fruto de uma investigação científica, por muito que me intrigasse; é meramente uma crónica, uma opinião que brotou das leituras em quarentena e da experiência própria.

E se, este “reconhecer dos corpos humanos” cessasse por tempo indeterminado? Afinal é isso que está a acontecer. Comunicamos constantemente com as mesmas pessoas (geralmente familiares) no confinamento da habitação e não há qualquer outra conexão social (se todos forem ao encontro da lei estipulada). Ora, com isto há um “esquecimento” do nosso corpo, e da nossa matéria enquanto seres humanos.

Há uma conexão com o mundo através do virtual, mas o excesso do mesmo acaba por “cansar o corpo” – constantes enxaquecas, uma reação virtual através de estímulos diferentes dos habituais físicos, a carência social, etc. – é certo que, como Harari explicita e eu parafraseio, as comunidades físicas têm uma profundidade que as virtuais não têm, porque as tecnologias distanciam os corpos humanos, levando ao esquecimento dos mesmos.

Ainda nas minhas leituras dei de caras com um estudo, que foi noticiado pelo jornal Público, acerca dos acontecimentos biológicos face ao isolamento, onde se pode ler que: “Ao encontrar um estímulo ameaçador, os ratinhos que foram socialmente isolados permanecem imóveis no mesmo local por muito tempo depois de a ameaça passar, enquanto os ratinhos normais retomam a sua actividade logo depois de a ameaça desaparecer.” O que implica que a solidão neste tipo de animais provoca um aumento do medo. (Por ventura, nas moscas-da-fruta, por exemplo, aumentou o fluxo da agressividade).

No fundo o que quero aqui dizer é que uma das condições humanas é a vida social, e é talvez a mais importante porque constitui o humano enquanto tal – na sua humanidade.

Os valores passam a ser outros, a virtualidade provoca em nós uma anestesia nos sentidos de carência, a repetição habitual de processos é desgastante, a roupa não sai do armário e trocamos de pijama para fato-treino, e vice-versa, não há novas histórias a ser contadas, não há notícias (ou tudo gira em torno de uma), não há outras opiniões ou crónicas… no fundo esgotou-se a novidade e estagnou o tempo, estamos impotentes e com uma única arma em mãos, o sacrifício social pelo bem público – a saúde pública.

Há uma enorme necessidade de nos retermos ao confinamento para que se evite a propagação do vírus, e não está posto em causa isso, volto a reiterar – devemos ficar em casa! – o que quero aqui concluir é que o isolamento pode levar-nos à exaustão psicológica (e até mesmo física) porque eventualmente acabam-se as atividades virtuais que possamos fazer, ou até mesmo as analógicas. Caso não se acabem, entretanto finda a motivação ou inspiração.

Quanto às consequências psicológicas (em massa), que se irão suceder depois disto, ainda são incertas, porque estamos a viver um período histórico sem precedentes. É certo que as tecnologias têm abrandado a catástrofe que seria se vivêssemos esta pandemia sem elas, mas a longo prazo talvez nem elas sejam uma salvação à saúde psicológica.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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