Revista Rua

2019-07-02T21:24:36+00:00 Opinião

O desenho do mundo

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
2 Julho, 2019
O desenho do mundo

O Expresso fazia 20 anos e o 25 de Abril 19. Nessa altura entrou lá em casa um livro de caricaturas onde apareciam caras com um fino traço irónico: Soares, Eanes, Sá Carneiro, Otelo, Constâncio, Sampaio, Cavaco, Guterres, além dos internacionais Reagan, Gorbatchov, Kadafi, Khomeini, Bush, Thatcher, Arafat, Clinton, Iéltsin e os astros Amália, Eusébio, Pavarotti, Madonna, Jagger.

Lá no meio, envolto em polémica, João Paulo II, agastado, soturno, com um preservativo enfiado no nariz.

O Papa pôs-se a jeito – numa homília no Uganda, o polaco defendeu a castidade como a única forma de travar a epidemia da SIDA em África – e António aproveitou. Na mouche!

O estrelato dos cartoonistas vai muito do quão certeiros conseguem ser e o “(…) melhor caricaturista político da ainda jovem Democracia portuguesa”, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, voltou a sê-lo por diversas vezes: ora com Ratzinger e, recentemente, com Trump e Netanyahu.

Ironia das ironias, o desenho que coloca Trump cego guiado pelo seu cão-guia Netanyahu, foi publicado no New York Times a 25 de abril e posteriormente retirado, após uma revolta no Twitter do showman americano.

Sobre esse cartoon, escrevi no meu Instagram: this isn’t anti semitism. it’s just a cartoon. nobody will die for seeing this. free press.

Fui insultado por um americano de nome judeu.

Os cartoons, tão nossos – sátira tão portuguesa e mordaz com Bordallo Pinheiro, a revista Sátira, o papel do Grémio Literário, Vasco Santana que, em época de censura, lia o jornal à tarde e criticava à noite no Parque Mayer, Raúl Solnado, as caricaturas de António e Augusto Cid, Herman, Contra-Informação, Gato Fedorento, Bruno Nogueira tão importantes na imprensa livre – como tragicamente se viu com o Charlie Hebdo – hoje são mais confinados aos desportivos e expostos nas grandes mostras.

Vivemos uma época de caça ao humor.

Uma pessoa madura, ciente das suas capacidades – qualidades e defeitos – é uma pessoa que demonstra inteligência quando se ri de si mesma. Quem não tem essa capacidade é, geralmente, um indivíduo inseguro, amorfo, pouco empático, uma pessoa com quem custa manter uma relação para lá do estritamente necessário.

A mesma fórmula pode ser usada para os Estados: um Estado que tem a capacidade de rir de si mesmo, é um Estado onde os seus cidadãos têm a liberdade e a honestidade intelectual de criticarem e serem criticados, não colocando em causa princípios básicos da democracia e da vida comunitária. E não nos esqueçamos que o Estado somos todos nós!

Numa semana em que vivemos o limbo da guerra com o Irão e as consequências que isso pode trazer para a economia mundial, o impasse na escolha dos novos líderes da Europa, Trump babado ao lado Kim, um pai e a sua filha, salvadorenhos, morrem a atravessar um rio, do México para os EUA. Tudo casos possíveis de caricaturar.

Trump, a jogar golfe, olha com asco e prefere a pergunta: “importam-se que eu continue a jogar?”. É a política migratória do governo norte americano que predispõe situações destas, como refere o cartoon de Michael de Adder.

Nenhum bom pai de família coloca os filhos em perigo e o rio tinha uma corrente forte, referem os defensores do Presidente, lá na sua terra e no nosso pequeno retângulo à beira-mar plantado.

Adder foi dispensado de vários jornais e pouca gente se importa com isso.

Cada vez mais o mundo é a preto ou branco. É nós ou eles. É sim ou não. Vivemos anos de luz, mas parece que já são passado e aproximamo-nos da idade das trevas. Acendamos umas velas!

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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