Revista Rua

2020-10-01T17:35:17+00:00 Opinião

O Dia Mundial da Música todos os dias

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
1 Outubro, 2020
O Dia Mundial da Música todos os dias
©D.R.

O Dia Mundial da Música é todos os dias. Todos os dias são válidos para celebrar a música e todos nós merecemos celebrar a música. 2020 tem tido, de facto, muito pouco para celebrar, mas este dia e este mês são especiais. Nos dias de hoje há dias temáticos para tudo, todos os dias são dias de qualquer coisa, mesmo que sejam dias de nada. Arriscar-me-ia a dizer que os 365 dias que o ano tem estão já preenchidos e distribuídos por temas e, no meio de todos os motivos diários que uns e outros têm para celebrar, há este dia; o da Música.

Hoje mais do que nunca é urgente celebrar, lembrar, consumir e reconhecer a música no seu todo. Passamos por uma fase das nossas vidas em que nos privamos de tudo um pouco e em que fomos forçados a estar mais ou menos distanciados das coisas que gostamos e o contacto com a arte, (seja ela qual for), não é exceção. Em média, na minha atividade profissional, organizo entre 30 a 40 espetáculos de música por ano e neste ano, por força da nova realidade, tive de reduzir isto a quase nada. Esta é uma realidade para mim e para tantos outros profissionais da área artística, sejam eles artistas, técnicos de produção, agentes ou operadores logísticos, todos sofrem uma crise sem igual e que deixará marcas profundas nesta atividade profissional. Se quem organiza, planeia e programa este tipo de atividade cultural se vê privado de o fazer, consequentemente é o público que se vê, em suma, privado de estar em contacto.

Nunca em momento algum da nossa memória mais recente estivemos tão privados de consumir – ao vivo – e de estar em contacto com a música. É certo que todos podemos e devemos consumi-la no dia-a-dia, seja pela rádio, plataformas de streaming, em disco ou vinil. Esta é talvez a medida que, por exemplo, a mim me tem dado algum conforto e sanidade numa fase destas. É que a música consegue ser um vício. Aliás, haverá melhor vício? É um vício que alimento, um vício que gosto de ter, um vício imaterial, que deambula entre o éter das coisas e que o torna um tónico para as nossas almas. Porém, mais do que ouvir é preciso sentir! Numa altura em que tudo é instantâneo faz-nos falta ter essa capacidade de sentir as coisas; neste caso de sentir a música. Faz-nos falta estar em frente a um artista/banda e sentir o som do bombo da bateria a bater diretamente no nosso peito ou da guitarra a ecoar nas nossas cabeças durante horas. Faz-nos falta sentir a comunhão do prazer que ouvir música nos dá quando estamos numa plateia. Faz-nos mesmo muita falta fechar os olhos e sentir o que ouvimos.

É importante relembrar e celebrar este dia e a música. Escrevo este texto com a preocupação de quem não sabe do que será da música (nem de nós) no dia de amanhã, das consequências que tudo isto terá nas salas de espetáculo, nos artistas, agentes, técnicos e no circuito independente que está a ser completamente dilacerado. Apesar disto, desta preocupação, há uma coisa que a música nos faz muitas vezes que é alimentar o sonho, imaginar, projetar, instigar e inspirar. É com estas armas que temos de acreditar que se dará a volta a isto e que voltaremos a ter a música, por inteiro, nos nossos dias.

É sobretudo para isto que o Dia Mundial da Música deve servir: para nos inspirar e lembrar que amanhã podemos ser mais, que podemos ser melhores e que o mundo, no seu todo, pode ser melhor. Por estes dias tenho dito que a experiência de ouvir música ao vivo vale, agora, ouro. Sempre teve este valor, mas andávamos distraídos. Por isso, acredito que no meio de todo o mal que a situação deste 2020 nos trouxe, também terá o poder de nos despertar e olhar para o que realmente é importante.

É urgente sentir. É importante ouvir.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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