Revista Rua

2020-08-24T10:19:34+00:00 Opinião

Ó, dona Ester!

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
24 Agosto, 2020
Ó, dona Ester!

O fogão está ligado, instrumentalizado pela botija de gás, que mais parece uma doideira, como funcionam tais coisas, palavra de honra que me ponho a pensar, Como é que de tal botija se atinge e se eleva a chama aos seus bicos e nos concede a preparação (ou o confecionar) de uma refeição, pois bem, a panela fumega enquanto o testo bate caridosamente nas suas bordas, como que a ter um chelique de temerosos tremidos, às tantas está a ter um ataque de pânico ou coisa que o valha, vá-se lá perceber de culinária, chame-se aí o Ljubomir, espreite comigo, parece que vai saltar a tampa, antes a tampa da panela do que outras tampas, e o ardor de sopa, aquele cheiro quente mesclado com lar, com família, já se mistura com a temperatura alterada que se sente lá fora, na rua, entrando pela janela da cozinha. Aqui, entre nós, tendo em conta que os jornais pouco sabem, quer saber da melhor? Ah pois, diz-se por aí, sei lá quem, não pensem que queimarei as pessoas do apregoar, e então dizem que o Lubomir, como as gentes sem experiência nas línguas poliglotas têm por hábito palrar, que o homem trocou um canal pelo outro, veja lá! Não se espante, vá!, seja forte como as tenras verduras da horta! Mais um troca-tintas! A Tininha regressou ao seu posto e, este, que em tantas noites me fez aprender saber fazer um estrugido no ponto, tristeza das tristezas para um agora que a mágoa contém, custando a engolir, a lidar, como dizem os jovens, vai-me pregar para outra freguesia! Ai, e agora, que serão dos meus cozinhados sem as dicas vertiginosas de colocar tempero nos caldos, com as cascas das cebolas incluídas no confecionar?

Bom, lides à parte, vamos ao que interessa neste contar, antes que o meu leitor já se apresse a dirigir o olhar para a tecnologia de bolso. Antes que me troque, como certas e determinadas pessoas que por aí andam…

Adiante! Por seu turno, a televisão está num bichanar percetível ao ouvido daquele que se proporcione a inteirar pelo que acontece e, como tal, vai largando umas notícias daqui e de acolá, e veja-se que dá vontade de pedir à dona Ester que aumente o volume do televisor, Oiça lá dona Ester, dentro dos possíveis que esteja disponível a ouvir-me, acredito que não tenha vagar para me ouvir, ou interesse sequer, pois que anda sempre a cirandar, mas dá para aumentar aí o volume da televisão, porque me apetece estar a par do que se anda a passar?, era assim o meu dizer, cheia de toda uma vontade de tudo, e ela largar-me-ia uma rabugice seca, ao ponto de me fazer arrepender de tais coragens vindas da fala ousada, ou então faria como o Alfredo da película novelista, aquele a quem o manhoso do ouvido atende somente ao que lhe interessa…livra, coitada da dona Joana!

Do que consigo ouvir, o tio Marcelo esteve na praia, hum, a comer as bolas de berlim, a tirar fotos com pessoas, que pasmaceira, nada de novo, ui!, afinal, o nosso PR ajudou duas pessoas na praia, grande atitude, grande gesto!, dona Ester, oh dona Ester, venha ouvir e ver aqui o nosso Presidente na televisão a salvar pessoas na praia!, este homem, realmente, está em todas!; bom, ela não me liga, olhem, movimento racista e xenófobo a registar uma mensagem no SOS Portugal, veja dona Ester, andaram a ameaçar deputadas e tudo, já viu como anda o país, mulher, caminhamos sobre as labaredas e cultivamos uma cegueira do catano!, venha ver, chegue-se cá a ver como anda o país; ah, já estão a falar do vírus, bom, parece-me que precisamos de algum tempo para as coisas irem ao sítio, por isso, continue a levar a máscara, já sabe como funciona, está a ouvir-me dona Ester?; o Douro continua na moda, dizem eles, e bem!; o Trump continua a fazer das suas, aquelas suas artimanhas nunca mais passam, até dizem que contabilizaram vindas da sua boca, oiça bem, prepare-se, 20 mil mentiras, realmente anda tudo de pantanas, anda, já ninguém consegue perceber como isto do mundo trabalha, se é que ainda trabalha alguma coisa…

A panela ferve, assim, repentinamente, algo me diz já estar desgastada de tanto cozinhar, chega-se a um certo ponto que, tal como as pessoas, as panelas contam de suas justiças, ora e não haveriam de contar também porquê, hã, até parece que a comida também não nos enche a barriga, um olho em desvio e está o caldo entornado, já sabe, não é assim, e eis que a sopa de favas transborda em ardência, disposto quase a apagar o gás do bico, para grande descontentamento de quem vai a seguir comê-la, como se a sopa fizesse esquecer os problemas em redor, veja-se a simplicidade do impacto que uma sopa de legumes pode fazer, tornar incólumes as dores existenciais, quiçá, e às tantas já me atrevo eu a tentar avisar a dona Ester, Olhe a panela, dona Ester! Daqui a nada nem sopa, nem cozinha tem! Acuda, acuda à panela que ferve, mulher!

E toda ela vem lançada de chinelos…

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia

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