Revista Rua

2018-11-08T14:56:10+00:00 Cultura, Fotografia

O elogio do deserto por Rui Pires

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Helena Mendes Pereira2 Julho, 2018
O elogio do deserto por Rui Pires
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“O mundo futuro excluía os aventureiros, os homens de honra que tinham levado a humanidade primitiva para fora do labirinto geológico com a força e pela inteligência, os condenados da verdade e todos os justos.”

Mohammed Khaïr-Eddine (1941-1995)

Rui Pires nasceu em Braga em 1972 e licenciou-se em Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto. Em 2005 tem o primeiro contacto com o deserto e, desde então, o regresso tornou-se rotina de fuga à emergência dos dias. É no deserto que, desde então, Rui Pires regressa à paixão da fotografia, à fotografia enquanto arte, à fotografia enquanto forma de olhar o mundo e de o contar. A série Silent South, que ora se destaca, tem aumentado o seu leque de imagens de perturbadores silêncios, marcadas pela inexistência do tempo e pelo confronto com a natureza em estado puro que o homem coloca ao seu corpo e à sua mente. Resulta de um processo de descoberta e de enamoramento pelo lugar, oposto (na paisagem, na energia, no modo) do lugar de todos os dias. Rui Pires tem privilegiado as paisagens de transição pré-sahariana de Marrocos e Argélia. Nas palavras do autor, trata-se, simultaneamente, de:

“(…) um deslumbramento à inospitalidade imposta aos homens e animais, mas também uma profunda admiração pelo incansável esforço destes, para reclamar o direito de habitar e sobreviver nestas paragens. As imagens documentam ténues vestígios de uma luta, que não queremos reconhecer como nossa, contra o avanço lento, mas inexorável, do grande e imenso Sahara. Uma interação, onde homens e desertos lutam pela ocupação de vastas áreas de nada. A batalha pela sobrevivência ainda é possível aqui, embora condenada a um desfecho certo. Ao deserto basta-lhe apenas esperar o tempo suficiente para que a exaustão retire aos homens a vontade de lutar. Nesse dia, a vitória pertencerá ao deserto”.

Em hebraico, deserto diz-se «midbar», podendo significar “lugar solitário”, mas também “eu falo”. O deserto é, ao mesmo tempo, o lugar do silêncio e o lugar de uma palavra que se guarda nesse silêncio. As alegorias associadas ao deserto são comuns às três religiões do livro o que aumenta a vontade (e o medo) de nos perdermos no infindável. Contudo, na fotografia de Rui Pires há sempre presença de elementos que pontuam a paisagem ou, então, o exercício do desenho das formas através da objetiva, em bonitos degradês de cinzas e jogos de claro-escuro que adensam a narrativa. A ausência de cor personifica as possibilidades de leitura da paisagem e reforça a quietude. No deserto e nos seus desafios, o fotógrafo desliga-se do quotidiano e liga-se ao real interior. Será, também, pelo sentido da procura que a fotografia se eleva e se torna arte. O resto é a experiência de ver e de registar o visto, a partir de dentro.

Sobre o autor:
chief curator da zet gallery

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