Revista Rua

2019-04-18T12:17:53+00:00 Opinião

O estranho caso de Conan Osiris parte II

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
17 Abril, 2019
O estranho caso de Conan Osiris parte II

Há uns meses escrevi, neste belo espaço de opinião, um artigo sobre o Conan Osiris. À altura ainda não era conhecido pela chamada “generalidade” das pessoas, nem tinha ido ao programa de televisão da Cristina Ferreira, nem estava ainda, tão pouco, anunciado como concorrente ao Festival da Canção/Eurovisão. De lá para cá muita coisa mudou.

Ora, confesso que nesse artigo assumi um risco: o de escrever publicamente que não sou apreciador do trabalho do Conan Osiris. Não estou a criticar nem a linchar a obra dele como se tem visto; simplesmente não é para mim e é legítimo. Há de haver sempre quem goste e quem não goste e eu, tal como disse, nem chego a perceber a música de Osiris. E digo que assumi esse risco porque parecia ser um sacrilégio não gostar dele. De lá para cá a grande mudança foi: toda a gente agora o conhece. Os meus pais, os pais de toda a gente, as senhoras do mercado, os senhores do café, do quiosque e por aí fora. Em resumo, passou dum nicho de pessoal mais atento, que consome música e vai a festivais de verão para ser conhecido por todos.

Fotografia ©D.R.

Esta participação e este boom de popularidade trouxe reações bastante diferentes, do público, relativamente ao que as pessoas pensam da música do Conan. Se antes era quase um pecado mortal dizer que não se gostava dele, do nada passou a ser quase “pão nosso de cada dia” ver nas redes sociais críticas bastante negativas e quase que um linchamento público, no geral. Não deixa de ser curioso que mesmo assim venceu o Festival da Canção com mais votos do júri e do público. O que eu depreendo é que as pessoas que não o conheciam – o público em geral – não só não gostaram do que ouviram como ainda o tornaram num motivo de gozo recorrente; fosse pela música, fosse pelo aspeto dele, fosse pelo bailarino, enfim… tudo era motivo. Incluindo depois da vitória, onde, repito, foi o mais votado pelo público. Diria que passou de crítica a indignação.

Honestamente eu não estava à espera disto e o motivo é muito simples: se há festival ou lugar onde o Conan Osiris faz sentido é precisamente nesta competição. Basta olhar para quem venceu no ano passado ou quem tem ganho durante anos e anos. O Salvador Sobral foi quase uma Coca-Cola no deserto, no que diz respeito ao género de música. O Conan é um perfeito candidato e tem os elementos todos para lá estar. Esta indignação gerada pelo Festival da Eurovisão era o que eu estava mais à espera que tivesse acontecido no passado quando, do nada, tínhamos o Conan Osiris a ser colocado num pedestal nos festivais de verão mais importantes, a servir de banda sonora em publicidades das maiores empresas do país, a ser considerado como autor dum dos melhores discos de 2018 pela Blitz ou Antena 3. Isto, com franqueza não entendo. Agora, estar a ser bem-sucedido no Festival da Canção e ser até um dos favoritos a vencer o Festival da Eurovisão parece-me perfeitamente aceitável. Quase me apetece dizer: deixem lá o Conan representar o país no festival em que ele realmente está bem.

Às tantas, se pensarmos bem, nada disto tem lá grande razão de ser, portanto, deixem lá o Conan Osiris partir o telemóvel à vontade.

Independentemente disto tudo, creio que a indignação se deveu ao facto de acharem que Osiris não era merecedor de estar no Festival da Canção e isso leva-me a outro ponto: que relevância tem o Festival da Canção em 2019? Entendo o esforço em revitalizar o formato do concurso, de trazerem artistas e compositores diferentes, mas até aí me custa a perceber. É que olhando para o naipe de artistas, o único talhado para este momento era mesmo o Conan Osiris. Serei eu o único a achar que grande parte deles eram peixes completamente fora de água? E do que serve ganhar o Festival da Canção nos dias de hoje além de uma momentânea popularidade que se vai à vida depois de ser usada como tópico numa conversa de café?

Esta quase histeria pelo Festival da Canção/Eurovisão que quase já ninguém falava durante anos é para mim uma grande incógnita, confesso. Além do Salvador Sobral – e talvez da vencedora do ano passado – alguém ainda se lembra de outro vencedor deste concurso em sei lá… dez anos? Às tantas, se pensarmos bem, nada disto tem lá grande razão de ser, portanto, deixem lá o Conan Osiris partir o telemóvel à vontade.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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