Revista Rua

2020-03-16T19:33:06+00:00 Opinião

O Exército da Saúde

Sociedade
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
16 Março, 2020
O Exército da Saúde

A nossa era tem um novo marco. Não tenho dúvidas sobre o apontamento do ano de 2020 nos livros de História por largos anos.

Todos estamos a par de mil e uma notícias sobre a pandemia “Covid-19”, pelo que tal facto me liberta de discorrer sobre o próprio vírus, suas causas e consequências para a saúde, matéria sobre a qual não possuo conhecimento técnico para me pronunciar. Aliás, seria altamente proveitoso deixarmos o tratamento da questão para quem está habilitado a fazê-lo, evitando a corrente de tinta corrosiva que tem invadido o mercado do debate.

Contudo, este é um acontecimento que não escolhe reis ou peões. A nuvem que se abate sobre o mundo cobre cada um de nós, sem escolher um alvo pré-definido. Não obstante estarmos na vanguarda de todo o desenvolvimento tecnológico e científico, a verdade é que o Homem não consegue enfrentar este problema de forma célere e com a desejável eficácia. Sendo isto uma questão inultrapassável, podemos cair na tentação de baixar os braços, de nos conformarmos e desacreditarmos no futuro, abdicando de acções que podem (e serão!) cruciais.

Mas é aqui que a porta se abre para a História. O nosso planeta já viveu épocas de enormes dificuldades, com a ocorrência de fenómenos que ceifaram a vida a milhões de seres vivos. E está definitivamente na altura de abrirmos os livros e aprendermos o nosso passado, para encararmos o presente e o futuro com acuidade.

Esta não é a primeira pandemia dos nossos tempos. E não será a última. A questão que se coloca não é “e se?”, mas antes “quando?”. Posto isto, teremos inevitavelmente de enfrentar o problema, sem qualquer possibilidade de ignorarmos o perigo com que nos deparamos ou equacionarmos uma qualquer corrente de sorte que possa, de forma súbita, erradicá-lo.

Sem qualquer pejo, não raras vezes apontam-me como alguém que tem a necessidade de fazer uma interpretação de grande parte dos assuntos hodiernamente discutidos à luz de um contexto histórico, mormente relacionado com os maiores eventos do século passado, como sendo a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Permitam-me aproveitar esta majestosa oportunidade para me repetir.

Olhemos obstinadamente para as épocas em que os nossos antepassados viveram privações da mais variada ordem e retiremos o que de melhor fizeram. Esta é, definitivamente, uma altura de guerra. Uma guerra que tem de ser travada, independentemente da nossa vontade. E a História ensina-nos que os vencedores têm, na sua maior parte, traços comuns: coragem, união, resiliência.

“Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”. Esta é uma das frases mais conhecidas do primeiro discurso de Winston Churchill como Primeiro-Ministro, em Maio de 1940. As suas palavras foram duras como os tempos que se anunciavam. Churchill não recebeu aplausos, mas de forma corajosa e visionária preparou os britânicos para o que viria: cinco longos anos de guerra e sofrimento. Ao contrário de muitos políticos, que não quiseram entrar numa onda “precipitada e alarmista”, Churchill reconheceu a ameaça que Hitler representava e o vigor das forças alemãs. Melhor do que ninguém, sabia o quanto era importante enfrentá-los. Mais do que a defesa de um país, tratava-se de uma luta pela vida.

Hoje, o sangue, o suor e as lágrimas são de todos os nossos profissionais de saúde, a quem aqui presto o meu singelo tributo. São soldados sem um equipamento adequado para batalhas diárias, mas cujo espírito de abnegação e sacrifício devem inspirar toda uma nação.

E se não acreditarmos numa liderança política, podemos certamente ter fé num grupo de pessoas empenhadas freneticamente em alcançar uma vitória que será de todos!

A cada um de nós, cabe a responsabilidade de acatarmos os conselhos que nos são dirigidos, respeitando a saúde do próximo. Será capaz de o fazer?

Abra o livro de História. Quando as grandes guerras deflagraram, milhões de pessoas não beneficiavam de um cuidado médico. Milhões não tinham uma casa. E os milhões que tinham um abrigo contavam com a certeza da incerteza de uma bomba terminar no seu telhado.

A nossa era pode não ser capaz de evitar estes fenómenos. Mas é certamente a que está mais preparada para os enfrentar. A maneira mais rápida de acabar com uma guerra é perdê-la. Mas com um exército da saúde do nosso lado, esta é uma guerra duradoura que vamos vencer.

Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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