Revista Rua

2020-02-05T10:14:07+00:00 Opinião

O gato sem redes socais

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
5 Fevereiro, 2020
O gato sem redes socais
©D.R.

Os dias de Janeiro são terrivelmente aborrecidos. Com tendência a piorar naqueles em que nem chove nem faz sol. Um gajo fica na dúvida se pode ir tomar um café de camisa ou tem de levar a samarra atrás, o guarda chuva, o pano dos óculos, etc., é uma chatice.

Assim que abro a porta do prédio deparo-me com mais prédios defronte, daqueles antigos com a pele cascada, sem estores e com janelas de madeiras. No segundo andar, aquando ergo a cabeça, vejo um gato, que nem é preto nem é branco. Tem uma elegância mista ao longo do seu pêlo cuidado. Repousa tranquilamente, até se aborrecer e remansear noutro sítio qualquer.

A sua passividade é reconfortante. O gato olha-me de cima. E olha os demais. Os apressados para o trabalho, os atrasados para a faculdade, os sem abrigos a colher beatas do chão, (que praguejam com a lei que lhes tirará o pouco tabaco que têm), e depois os que como eu, ficam incrédulos a olhar para o céu, à procura de “céu velho” (um pouco de azul) ou de nuvens esclarecedoras.

No meio de tantos, o gato não compreende que alguns daqueles que por ali passam são os mesmos que enchem as redes sociais de “análises políticas”. Pessoas de meia idade que se afirmam publicamente xenófobas e racistas, como donas da razão, clamando os direitos da democracia… outros, teóricos políticos e intelectuais académicos (meros estudantes) que nunca leram um livro de política, e a última leitura que fizeram foi a manchete de um jornal online.

A nova direita e a nova esquerda difundem o extremismo através da crítica alheia oposta, fundamentando-se nos erros do outro. A esquerda não leu os livros da direita, e a direita não leu os livros da esquerda. Leram sínteses, ideias escamoteadas, parágrafos soltos… às vezes comentários de dez a quinze linhas, eloquentes, de filósofos facebookianos.

Aquele gato do segundo andar olha todos de maneira igual, e todos parecem iguais, a vaguear pelo passeio. Uns mais rápidos, outros devagar. A passividade do gato mantém-se, porque o gato não tem redes sociais. O gato não lê caixas de comentários.

Por vezes opto pela passividade do felino domesticado. Visto o casaco e vou até ao café. Socializo, discutimos dois ou três tópicos atuais, pagamos o consumo, e regressamos a casa. O gato ainda lá está, passivo. Por vezes vai lá para dentro.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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