Revista Rua

2021-03-19T17:09:15+00:00 Opinião

O ilusório perdão dos meus pecados

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
19 Março, 2021
O ilusório perdão dos meus pecados

Não sei em que ano cheguei cá ou se sempre aqui vivi, entre os tapumes de uma obra inacabada e a evidente caridade orquestrada em frente de outros vizinhos para que sejam objecto de elogios e pancadinhas no ombro durante dois ou três dias, depois esquecem-se que existo, aliás, eu próprio suspeito que não existo, devo fosforescer como as alminhas dos fogos-fátuos nos cemitérios de aldeia, portanto, ia eu a dizer que depois se esquecem de mim, evidentemente se esquecem de mim, confundem-me com outro até, não me olham na cara porque não sou gente, sem dinheiro não há dignidade, nem existência, nem se é amostra de pessoa, como qualquer um de nós sabe, sem dinheiro até a noite nos abandona, sai-nos do corpo a sombra e ninguém dá fé que durmamos ao relento cobertos por um lençol de cartão, nem a voz se ouve, fala-se, pensa-se que se fala e é apenas a boca a gesticular uma súplica absorvida pela escuridão, portanto, no ano em que cá cheguei não conseguia sequer dormir com o barulho, tanto ruído a noite toda, o coração a pulsar na membrana dos tímpanos, percebi mais tarde que não era barulho algum, melhor, não era ruído, berravam antes os olhos do homem que dormia diante de mim no vão de escada do prédio em frente, embrulhado numa capa de edredom, aquecendo as falanges esqueléticas num petromax de campismo, tiritando e chocalhando molares, chamando Mamã, Mamã, Mamã e entendi aí, amigos, que todos estávamos errados, o que nos ensurdece não é grito algum, não é o sorrisinho sonso atrás da mão que entrega uma moedita ou um pão, não são sequer as costas da mão que nos enxotam com digníssimo

(sem dinheiro não há dignidade)

desprezo, não são sapatos sem sola a que se corta o calcanhar para o pé caber, também não somos gente se não há o que separe a pele do chão, mas como vos dizia, amigos, o que nos ensurdece não é grito algum, o que nos ensurdece são as pupilas vítreas que ninguém ouve por distracção, claro que por distracção, ecoando para sempre numa insónia sem fim.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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