Revista Rua

2020-06-26T14:52:21+00:00 Opinião

O interior de nós é a terra de tudo

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
26 Junho, 2020
O interior de nós é a terra de tudo

A mão vai tremendo as palavras em solavancos. Mas não faz mal, vão saindo. Lembro-me de pessoas, as minhas vozes nunca desaparecem e ainda bem. Durante o dia esvaem-se um pouco, voltam depois do sol se pôr e ficam. Apaga-se a luz e, aos poucos, tudo se torna mais claro, os véus do dia vão caindo e fica o esqueleto do mundo a fosforescer no tecto do quarto. Vem-me Faulkner à cabeça

– O passado nunca morre, nem sequer é passado
e não é, de facto, passado, é uma amálgama de pessoas, casas enormes dentro de nós, cheiros, que surgem em catadupa, a propósito vem o Hemingway

– Os nomes penetram-nos até aos ossos
e como é que se esquece seja o que for? Lá fora chove sem parar e o mecanismo do mundo parece ser claro e simples nestas alturas, não há angústias no tempo, há uma vida que segue, há a minha vida que segue com todas as outras que carrego comigo no mais profundo interior de mim, num espaço que penso ainda não ter conquistado por completo: conheço-lhe a extensão

(penso eu)
e falta desbravar terreno – é uma terra de sombras escuríssimas, desconhecidas, mas cujo coração é uma malha de imenso amor, embora na maior parte dos dias eu não imagine como o viver ou como o demonstrar. Essencialmente é isto a que me proponho no que faço, embora as perguntas nunca sejam claras e as respostas, na maioria das vezes, inexistentes. De resto, é como uma vez ouvi: o sonho só acaba para aqueles que dele acordam.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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