Revista Rua

2019-10-18T17:06:10+01:00 Opinião

O invisível

Crónica
Francisco Santos Godinho
18 Outubro, 2019
O invisível

Que ando aqui a fazer em torno do berço de palhinha e madeira lacada em que me embalavam? Porque é que olho para estas imagens suas e da mãe comigo ao colo e não me parece que seja eu mas antes o filho que não teve? Será que se me trancar no sótão e apagar a luz tudo isto volta a ser coisa? Ou o pai vai escorraçar-me como fazia com a criadagem?

– Mundo

e desapareciam todos para a trepadeira no fim do quintal para ficar sozinho com o narrador das suas histórias que, suponho, se sentava na beira de tijolos da lareira, abanando o atiçador com a ponta do pé, sem que nenhum de nós o visse, ninguém se atrevia, nem a minha mãe, que subia logo ao quarto para abrir a cama e esperar o corpo do pai, uma vez que só o corpo é que subia, o resto ficava na sala a fazer companhia às estantes. Que ando aqui a fazer em torno do berço? O que agora é o sótão dantes era o autorretrato do meu pai, olhando as coisas, olhava-se-lhe no rosto olhos com olhos, uma construção sua e por isso o meu pai era uma bicicleta sem correia, um molho de cartas que um dos irmãos lhe escrevera da Covilhã, o abismo entre as pilhas de tranqueira. Não éramos impedidos de lá entrar, se houvesse segredo era de polichinelo, só uma caixa que descia com o meu pai para a sala e depois os nós dos dedos a enxotar para trás das costas

– Mundo

e saíamos. Não era bem criadagem, era a Emília que cuidava de mim e dos meus irmãos e o Augusto que construía uma babilónia de buxos com uma horta ao lado da trepadeira, tornam a ser vultos familiares sempre que cá venho e, no entanto, só a minha mãe na cadeira de verga ao lado do estendal sem roupa, só cordas e molas apavoradas e sem propósito. Que ando aqui a fazer em torno do berço? Não sei responder, não me apetece ir para casa, apetece às vezes, mas se o meu pai erguesse os nós dos dedos,

– Mundo

desaparecia com a Emília e o Augusto para o cimo da trepadeira.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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