Revista Rua

2020-12-14T13:54:29+00:00 Opinião

O marco de Pearl Harbor

Política Internacional
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
14 Dezembro, 2020
O marco de Pearl Harbor

No dia 7 de Dezembro de 1941, o Império do Japão encetou um dos mais célebres ataques da História: Pearl Harbor.

Pelas oito menos cinco da manhã de Domingo, hora do Havai, cerca de 360 aviões atacaram os navios de guerra fundeados em Pearl Harbor. Quatro couraçados foram afundados: USS Arizona, USS California, USS Oklahoma e USS West Virginia. Outros quatro foram danificados: USS Nevada, USS Pennsylvania, USS Tennessee e USS Maryland. Mais de uma dezena de outras embarcações sofreram danos ou foram destruídas. Para além destes números, cerca de 350 aviões americanos foram destruídos ou danificados. Contaram-se mais de 2400 mortes.

No final do dia, hora da Europa Central, Hitler regozijou-se no ‘Wolfsschanze’ (Toca do Lobo), o seu quartel-general em Rastenburg, na Prússia Oriental: “Agora é impossível perdermos a guerra. Temos um aliado que nunca foi conquistado ao longo de três mil anos”, afirmou. Algo que foi um alívio para o ditador alemão, pois os acontecimentos coincidiram com a sua Directiva 39, que postulava o abandono imediato das principais operações ofensivas na Rússia, para passar à defensiva. No meio de um profundo desalento em virtude das notícias do Leste, Hitler ficou eufórico com a escala do ataque japonês.

Pearl Harbor foi também um alívio para Winston Churchill, que viu no ataque japonês uma oportunidade inestimável de lutar lado a lado com os americanos contra os inimigos comuns: Japão e Alemanha. Contudo, para os americanos, era a guerra contra o Império do Japão que devia ser privilegiada e explorada com toda a urgência. Foram dias tenebrosos para os britânicos, que se viram confrontados com uma das maiores perdas da guerra até àquele momento: no dia 10 de Dezembro o couraçado ‘HMS Prince of Wales’ e o seu gémeo ‘HMS Repulse’ foram afundados ao largo da Malásia.

Assim, Pearl Harbor marcou de forma distinta as várias nações: o Império do Japão iniciou as suas hostilidades contra os americanos e potenciou as suas conquistas na Ásia; os Estados Unidos declararam guerra ao Império do Japão e entraram oficialmente na Segunda Guerra Mundial; os britânicos, não obstante contarem agora com o seu desejado aliado, viram-se confrontados com grandes perdas na sua defesa naval e no seu império, e também com o facto de os americanos terem como grande preocupação a guerra no Pacífico, deixando a Europa para segundo plano; mas foi o impacto que Pearl Harbor teve nos alemães que mais marcou o curso da História.

©D.R.

Hitler viu no ataque japonês um enorme encorajamento. Contrariamente ao que muitos pensam, o pacto Tripartido – assinado por Alemanha, Japão e Itália – não obrigava qualquer um dos países a prestar assistência militar a outro, no caso de entrar em confronto militar com outra potência. Mas quando se encontrou com o belicoso Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, Yosuke Matsuoka, na Primavera de 1941, Hitler fez uma oferta que não fora solicitada: “No caso de o Japão entrar em guerra com os EUA, a Alemanha tirará as suas conclusões. Consequentemente, a Alemanha interviria de imediato no caso de um conflito”.

E assim foi. O ataque japonês no Havai culminou num dos actos mais irreflectidos e decisivos de toda a Segunda Guerra Mundial: a declaração de guerra da Alemanha aos Estados Unidos.

Depois de Pearl Harbor, os Estados Unidos viram-se arrastados para uma guerra no Pacífico. O teatro europeu ficava do outro lado do mundo, onde a Alemanha Nazi dominava grande parte da Europa. É certo que os americanos contribuíram com material de guerra (principalmente na

assistência à Grã-Bretanha), mas mesmo neste campo, sempre com grandes limitações. Contudo, a declaração de guerra da Alemanha alterou todo o panorama. Os americanos estavam agora também na Europa como potência beligerante. E as suas forças armadas foram talvez o maior contributo do Ocidente para derrotar Hitler.

Podemos cogitar na inevitabilidade de os Estados Unidos fazerem frente aos alemães, mesmo sem esta declaração de guerra. Mas a entrada dos Estados Unidos nos teatros de guerra do Pacífico e da Europa, naquele momento, obrigaram o país a transformar-se numa superpotência. Era altamente improvável que Roosevelt, a mãos com uma guerra no Pacífico, tivesse o apoio do Congresso para se pronunciar sobre a Alemanha, o que teria reduzido seriamente o seu envolvimento na Europa. No mínimo, daria tempo à Alemanha para suster recursos humanos e reforçar a sua capacidade militar.

Porém, Hitler e o seu séquito estavam reféns do seu próprio prestígio e propaganda para a antecipar. Tal como Ribbentrop – o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão – afirmara, “uma grande potência não permite que lhe seja declarada guerra; é ela própria que declara guerra”. E não havia melhor altura para compensar a crise na frente oriental.

Pearl Harbor foi muito mais do que uma tragédia para os americanos. Foi também o mote nemésico que enfrentou a Alemanha e a derrotou.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

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