Revista Rua

2019-08-14T17:04:58+00:00 Opinião

O Mercado da Saudade em que vivemos

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
14 Agosto, 2019
O Mercado da Saudade em que vivemos
Da Weasel ©D.R.

Um dos sentimentos mais poderosos que existe no ser humano, mais do que a alegria ou o medo, é a saudade. Somos movidos pela saudade e quase todos nós arranjamos sempre termo de comparação entre o que acontece e o que já aconteceu. “Dantes é que era!”, certo?
Nos últimos anos tem-se assistido a um autêntico “Mercado da Saudade”, seja na música, seja no cinema com regressos, remakes e reboots praticamente a aparecerem todos os anos. Se, por um lado, os ciclos existem e a moda é feita disso mesmo, de ciclos, por outro, parece que por vezes, nos dias que correm, perdemos a capacidade de procurar algo novo, o desconhecido, o inovador. Parece que o temos o nosso “disco rígido” cheio e para não termos de pensar muito ou perder muito tempo com o trabalho de conhecer o novo, ficamos presos e contentes com o que já conhecemos; isto é, com o tal passado.

Escrevi este texto passado uns dias de ser confirmado o regresso duma das bandas mais marcantes no panorama nacional ao ativo: os Da Weasel. Ainda a edição deste ano do NOS Alive ainda não tinha terminado e o Sr. Álvaro Covões decidiu fazer uma conferência de imprensa para anunciar já a nova bomba de 2020 e resultou em pleno, diga-se. Por essa internet fora, a surpresa do regresso da doninha espalhou-se rapidamente e o anúncio foi feito, então, como se de uma grande confirmação se tratasse.

Nos últimos anos tem-se assistido a um autêntico “Mercado da Saudade”, seja na música, seja no cinema com regressos, remakes e reboots praticamente a aparecerem todos os anos. Se, por um lado, os ciclos existem e a moda é feita disso mesmo, de ciclos, por outro, parece que por vezes, nos dias que correm, perdemos a capacidade de procurar algo novo, o desconhecido, o inovador.

Pessoalmente falando, não tenho nada contra os Da Weasel, devo até dizer que nos tempos de adolescência fui um fã, tal como os meus pares de geração. Considero que tiveram a sua importância e relevância no momento certo. Agora, estes regressos deixam-me sempre alerta e desconfiado. Em 2012, os Ornatos Violeta, por exemplo, anunciaram um regresso para colocar um fim à sua história. Eles nunca tinham “terminado”, tinham apenas “parado” e nesse ano decidiram que seria o fim. Pois bem, tocaram à volta de uma meia-dúzia de vezes quando era suposto tocarem três vezes e de lá para cá, também neste ano, curiosamente, voltaram a tocar… e onde? No NOS Alive (lá está), no MEO Marés Vivas e, em setembro, marcam presença em Faro no Festival F. Se os Da Weasel tiveram o seu reconhecimento quando estavam no ativo, os Ornatos Violeta são um daqueles casos em que apareceram cedo demais e o tempo fez-lhes a devida justiça. Hoje em dia são uma banda de culto e consigo aceitar melhor o regresso deles do que a azáfama gerada à volta de Da Weasel.

Não me interpretem mal. Não tem a ver com os Da Weasel ou com outra banda qualquer. Tem a ver com as apostas a jogar pelo seguro de quem faz programação musical; tem a ver com a nossa falta de interesse em ouvir coisas novas e ter tempo de qualidade para apreciar o que sai de novo; tem a ver com a fugacidade com que as coisas são consumidas e cuspidas fora; tem a ver com as mesmas dez bandas que atuam todos os anos nos festivais portugueses, onde neste ano é aqui e no ano a seguir é ali; tem a ver com o pagarem a peso de ouro a bandas para saírem da reforma em vez de quererem marcar pela diferença. A certeza do passado é tão mais segura do que a dúvida do presente e a incerteza do futuro, certo? Pois…

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

Partilhar Artigo: