Revista Rua

2020-09-28T10:26:30+00:00 Opinião

O meu sobrinho

Crónica
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
28 Setembro, 2020
O meu sobrinho

O texto deste mês poderá não ter tantas larachas, mas tem emoções boas na mesma. O meu sobrinho fez dois anos nesta semana e merece a minha homenagem, pela importância que tem na minha vida. E como as minhas crónicas costumam ser sobre a minha vida, faz sentido que vos volte a falar sobre o Afonso.

Em meses passados, descrevi a evolução da relação, desde que ele nasceu até começar a falar, e depois a fase do Canal Panda. Atravessamos agora a fase irrequieta, que envolve carrinhos, correr atrás dele, fazer bolas de sabão, voltar a correr atrás dele, dar de comer (bastante), correr atrás dele, trabalhar a plasticina, e Patrulha Pata. Tanta Patrulha Pata! Nunca pensei fixar os nomes de Marshall, Chase, Rocky, Rubble, Zuma, Skye, Everest e Ryder, sem que nenhum destes jogasse futebol. Quer dizer, há alguns jogadores com nomes parecidos, pode ser que isso ajude. Mas fixei mesmo porque sou bom tio e tenho de estar atualizado sobre os personagens que ele acompanha, caso contrário não há como conversar e brincar com o miúdo. Quando ele começar a ver séries é que vai ser pior.

Outra parte interessante desta fase da vida é aprender novos idiomas. O meu sobrinho já diz bastantes coisas em português (incluindo do Brasil), mas algumas ainda continuam a ser uma mistura de turco com croata. No entanto, estou bastante bom a descodificar o que ele quer dizer. Tenho pena que ele ache que eu sou um bocado lerdinho, porque eu pergunto-lhe coisas que ele acabou de dizer, para aí cinco vezes seguidas, para confirmar se era mesmo aquilo que ele queria, e ele responde “Shim!”, mas lá por dentro deve pensar “foi isso que eu te acabei de dizer, por que é que repetiste o que eu te acabei de dizer?”. O que conta é a intenção.

Em termos de influências, eu tenho apenas duas missões: fazer com que ele seja do Braga, porque eu preciso de gente que sofra junto a mim; e incutir-lhe sentido de humor. Mesmo tendo nascido dez anos depois do programa Os Contemporâneos, o Afonso aparenta já conhecer a personagem do Chato, que tinha a frase característica “vai mas é trabalhar, oh!”. Quando eu estou a trabalhar em casa e faço pausas para ir brincar com ele, não raras vezes, ele diz-me “Não! Vai balhar!”. E eu vou ‘balhar’, que sou bem mandado, seja qual for a idade da pessoa. Por outro lado, também não raras vezes, vem puxar-me pela mão, ao meu posto de trabalho na sala, para irmos brincar. Tudo ao contrário do que uma pessoa metódica como eu precisa, mas lá está, ele é quem manda. E com aquele sorriso, aquele maldito sorriso, não dá para negar.

É mais ou menos aqui que começa a parte da emoção boa: o Afonso mudou a minha vida e, acredito, a vida da minha família, para muito melhor. Mesmo que isso implique que eu tenha de me levantar muito cedo para ajudar a dar-lhe o biberão, quando ele dorme cá em casa. Mas só pararia de dormir voluntariamente por causa dele. E por causa de futebol, também, mas mais por causa dele. Tanto que mais ninguém teve o poder de me tirar da sala para ir aspirar, enquanto decorria um Marítimo-Braga. Há testemunhas disso.

O confinamento tirou-me muita coisa, mas o que fez mais falta foi poder sentir o xi-coração, o beijo na bochecha, fazer-lhe cócegas no pescoço e ouvir o grito “Nóniiiii!” ao vivo, durante três meses. Não mudo o discurso que tenho: a pandemia não nos vai tornar assim tão melhores. Neste caso, já era assim antes de isto acontecer, eu já lhe dava toda a atenção que podia, só que agora é com mais intensidade, porque há tempo perdido que é preciso recuperar.

Além de lhe incutir o braguismo e o sentido de humor, eu tinha outra missão: que ele gostasse de mim e que gostasse de estar comigo. Já consegui isso e espero que nunca mude. Da minha parte, nunca vai mudar, porque é impossível não gostar de estar com o Afonso.

Espero que ele leia isto, um dia – que deve ser daqui a uns meses, da maneira que ele evolui rápido -, e veja que o amor é assim, pelo menos para mim.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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