Revista Rua

2020-05-25T10:26:26+00:00 Cultura, Fotografia

O mundo como casa

©Filipe Pinhas
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio25 Maio, 2020
O mundo como casa

Este é o mundo de Filipe Pinhas desvendado através das imagens que vai capturando entre as horas dos dias.

A primeira vez que fui a S. Miguel, pensei que poderia morar ali e, sempre que voltava lá, pensava que me sentia em casa. Depois aconteceu-me o mesmo em Barcelona, e aí percebi que não existe um lugar que possa chamar casa.

 

 

As tuas fotografias são envoltas de um mistério que emerge assim que nos envolvemos na tua página de Instagram. Há algo que nos faz querer habitar os “teus locais”. É algo que tens noção que acontece? O que procuras enquanto fotógrafo?

Não tinha muito essa noção. Há muito que deixei de fazer um exercício com fotografias pensadas. A minha página de Instagram tem sido uma mistura, ou um resultado, de várias experiências, sejam elas de street ou landscape, quase sempre com uma componente de uma luz mais dark. Este é o meu único ponto de partida para o que virá a seguir.

Gosto quando se mistura a realidade com a fantasia das recordações e penso que isso se propicia sempre que fotografo com nevoeiro, que por si só tem uma forte carga de mistério, ou num ambiente naturalmente mais hostil e escuro como pano de fundo.

Na fotografia, como em qualquer arte, o importante é conseguir contar uma história. Seja essa história de instantânea identificação ou que te faça pensar o que está por trás de tudo aquilo. E é isso que procuro enquanto fotógrafo.

As pessoas e os lugares das tuas fotografias parecem quase sempre isolados, como se fossem as últimas pessoas ou últimos lugares habitados. Há uma certa forma de fim do mundo que acontece. Este apocalipse quotidiano representa a expressão plástica das tuas fotos? 

Gosto de isolar as pessoas da confusão que acarreta o dia-a-dia. Grande parte das fotografias são tiradas nas primeiras horas de luz, não como se fossem as últimas pessoas mas, neste caso, são sempre as primeiras a interagir com a cidade do caos que se adivinha nas horas seguintes.

Quando viajas levas contigo a sombra da fotografia? Mostras o teu mundo dentro de uma viagem através das tuas fotos?

Sim. A fotografia faz parte de quem sou, por isso acompanha-me onde quer que vá. E acho que, por isso, uma viagem através das minhas fotos acaba por mostrar uma  parte do meu mundo.

Existe um lugar no mundo que já tenhas visitado e que poderias chamar de casa? 

Não. Gosto de sair com a sensação de desconforto de cada lugar que visito, com a angústia de que ficou algo por fazer ou sentir, e poder voltar. Não me agrada o sentimento de conforto emocional na fotografia. A primeira vez que fui a S. Miguel, pensei que poderia morar ali e, sempre que voltava lá, pensava que me sentia em casa. Depois aconteceu-me o mesmo em Barcelona, e aí percebi que não existe um lugar que possa chamar casa.

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