Revista Rua

2020-01-27T16:12:30+00:00 Opinião

O ódio vago

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
27 Janeiro, 2020
O ódio vago

Expondo-me diariamente ao quotidiano citadino, dou de caras com vários tipos de pessoas, simpáticas, antipáticas, com mais ou menos raiva dos semáforos ou da lacuna típica dos “piscas” no trânsito, enfim, uma panóplia de personalidades, como seria de se esperar, especialmente em grandes cidades. Todos são, de algum modo, contadores de histórias. Abrindo-se mais, ou menos, para olhares mais atentos basta meia palavra para se compreender a intenção ou o pesar por detrás da situação.

Um rapaz, pouco mais velho que eu, partilhou comigo a delicada situação de um assalto a um amigo seu. Um assalto simples, com uma faca em punho, à porta de casa e com um espancamento agressivo sobre o rapaz, furtando-lhe bens como os cartões, telemóvel, e até o carro (dando a sensação de que, se pudessem, até a alma do rapaz roubariam).

Eventualmente a troca de palavras foi curta e o resto foi dispensado pela circunstância e ficou comigo uma réstia de pena que pairou ao meu passo o resto do dia. Os jornais e os televisores não demonstram uma realidade muito distinta daquela que me foi narrada e, pela carência desta notícia que me foi reportada em tom de desabafo, sinto que há muitas mais que ficam apenas assim, em “tons de desabafo”.

O ódio vai-se difundido por aí, a pouco e pouco, como um vírus, infetando pequenas partes do ser, das pessoas quotidianas com um trabalho das oito às cinco, que, por ausência de reflexão, não meditam muito sobre as palavras e os pequenos atos. Acabam por vezes por desencadear uma escalada de “pequenos ódios” na sociedade; ignoram com arrogância um sem abrigo que lhes pede esmola (sem sequer se dignar a um olhar humano, tratando-se abaixo da humanidade), ordenando um café (sem por favor, evitando novamente o contato visual), expelindo feitos vácuos e quotidianos sobre as outras pessoas sem abrir os ouvidos aos demais, tentativas ocasionais de superioridade…

Enfim, por mais “sem intenção” que se aja, não é daí que brota o “ódio”, ele não nasce da boa ou má intenção, mas sim da ausência de reflexão — da falta de pensamento.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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