Revista Rua

2020-05-13T18:14:38+00:00 Opinião

O ofício pesado dos dias lentos

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
13 Maio, 2020
O ofício pesado dos dias lentos

Dias indolentes têm a mão daqueles que, silenciosamente, enquanto estamos de costas, abrem gavetas poeirentas, manchadas pelo arrastar lânguido do tempo, retratos vários, mãos que conheço pelas carícias, vozes que conheço pelas impressões, pelo tom, vozes que não ouço, mas gostaria de ouvir. Empurram os biombos que separam cada um de cada qual e de repente a indolência é uma sala de espera cheia de ausências que não compreendo. Umas insurgem- se,

– Coitado, desocupou-se hoje e lá temos que aqui estar
queimando devagarinho rolos de filme por revelar, entornam lixívia nas fotografias já reveladas e vejo-as de forma distinta, papéis brancos sem explicação, quem lá estava não está mais e se calhar até gostaria que se mantivesse mas o não sei quem impediu-me o gosto, tirou-ma dali, vestiu-ma de azul mas usava sempre preto, não me confunda a memória

– Não é bem assim
conheço as quatro palavras melhor do que me conheço a mim, oiço a entoação sem qualquer falha, vinil sem riscos, gira na perfeição e igual há anos, não mudará. Mas o

– Não é bem assim
é familiar, não volta nos dias indolentes, permanece, nem quereria outra coisa. Voz teimosa que lá convence os comparsas a voltar para trás dos biombos

– Deixem lá o rapaz
não sei da gaveta, onde estará, repleta de pessoas aos vinte e dois. Imagino aos quarenta, aos cinquenta, provavelmente um armário de arquivo, uma despensa cheia de tralha, todos escondidos atrás de mais biombos, uma sala de exposição com visitantes mal comportados. Volta e meia um insiste e atira o biombo ao chão

– Olá rapaz, estou aqui, lembras-te de mim?
pelo sorriso e pela ironia que vejo no reflexo devo continuar a ser o rapaz que alguém me acusa de ser, gostava de olhar o rosto de quem por vezes diz

– Olá rapaz, estou aqui, lembras-te de mim?
e dizer que me lembro, como é que não havia de me lembrar – só não desaparece o prazer pueril de saber que, lá entre biombos que derruba, se lembrou de mim.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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