Revista Rua

2019-09-13T14:26:22+01:00 Opinião

O outro lado da outra margem

Crónica
Afonso Castro
12 Setembro, 2019
O outro lado da outra margem
©Afonso Castro

A luz das três e tal da tarde vê-se refletida em salpicos luminosos sobre as águas esverdeadas e lamacentas do Tejo. Lá ao fundo, vista através de um filtro de poeira azulada, Lisboa, meio apagada, os seus prédios e ruas significam pouco aqui, e depois claro, desenrola-se até cá uma língua de cimento enorme, altiva e sóbria, a ponte Vasco da Gama, e os camiões e os carros, como parte obrigatória da paisagem, rápidos e distantes do que se passa por cá.

O sítio é pouco convidativo, barcos antigos com a tinta quase descascada por completo baloiçam-se lentamente numa valsa própria, alguns estão meio afundados, outros são demasiado antigos para poderem ser usados, no entanto ninguém se desfaz deles. Mais ao fundo, estão postos barracões de chapa, aparecem nas mais variadas cores. Para além disso, há lixo por toda a parte, maços de tabaco espalmados, latas de cerveja, restos de cordas ressequidas.

Há um parque de estacionamento que dá acesso a uma praia aqui ao lado. Uma mulher de cabelos brancos desgrenhados está sentada numa cadeira velha, debaixo de um chapéu de sol desbotado, vende gelados, a clientela é fraca, então recosta-se e dormita. Eu viro costas à praia e àqueles que de toalha às costas rumam em direção ao areal, prefiro tomar atenção a este outro lado da outra margem. Vim cá para fotografar cenários mais ou menos áridos, restos daquilo que este sítio outrora foi, as águas calmas do rio, caranguejos atrofiados pelos químicos das descargas industriais, os verdes das zonas de sapal.

“Alguns deixam as bicicletas presas a esses cais palafíticos e entram nos barcos. Outros põem as bicicletas às costas e marcham rio adentro com a água a dar-lhes pelos joelhos. Não são portugueses. Assim que os vi lembrei-me de lugares como o Vietname, Tailândia, Filipinas”

Eu não sabia. Eu não sabia, mas desconfiei quando os vi chegar. Por caminhos de terra batida, por entre os barracões, apareceram bicicletas, pneus finos a calcar as ervas, vinham num trote desengonçado, com cestos atados à parte de trás do selim. E eles, de mochila de campismo às costas, mas não são de todo campistas, de chapéu de abas largas, alguns de lenço a tapar a boca, roupa puída, sapatos gastos, passavam por mim, e é claro que estranhavam a máquina de fotografar ao pescoço, no entanto às vezes diziam-me olá.

A maré começou a baixar. É hora de entrar pelo rio adentro. Aparecem como pescoços finos e frágeis os pilares dos vários cais de madeira improvisados. Alguns deixam as bicicletas presas a esses cais palafíticos e entram nos barcos. Outros põem as bicicletas às costas e marcham rio adentro com a água a dar-lhes pelos joelhos. Não são portugueses. Assim que os vi lembrei-me de lugares como o Vietname, Tailândia, Filipinas. Ao aproximar-me das margens do rio, fica claro o trabalho que têm pela frente, a apanha de amêijoa, há cascas vazias amontoadas por todo o lado, só avançando lá para o fundo é que se apanham esses bivalves vivos.

Cada vez aparece mais gente, cada vez vêm mais homens montados em bicicletas, e até algumas mulheres. Falam pouco entre eles, só lhes interessa que a maré está a baixar e que têm de encher os cestos e as mochilas. Atravessam o rio. O sol vai baixando e há uma fila de pessoas em contraluz a rumar para onde a apanha de amêijoa é fértil. E eu fotografo, com cuidado para não ser invasivo, e eu não sei como chegaram até Portugal, nem se aqui vão ficar e continuar a viver deste trabalho. Não sei se trabalham por contra própria ou se trabalham para alguém. Umas horas depois, ao passar de carro, enquanto me afasto daquele lugar, vejo mais homens e mulheres a caminharem em direção às margens do Tejo, e vai escurecendo, e eu lembro-me de que se calhar já só quando for de noite por completo é que aquela gente vai voltar para sabe-se lá onde.

“Um ou dois dias depois, escrevo na barra de pesquisa do Google apanha de amêijoa no samouco. Decido pesquisar por estas palavras porque depois de ver as fotografias que tirei, há ainda muita coisa que não compreendo. Afinal, não é um fenómeno recente, nem pouco mais ou menos. Os primeiros artigos e notícias mais detalhados sobre esta prática datam de 2017″

Um ou dois dias depois, escrevo na barra de pesquisa do Google apanha de amêijoa no samouco. Decido pesquisar por estas palavras porque depois de ver as fotografias que tirei, há ainda muita coisa que não compreendo. Afinal, não é um fenómeno recente, nem pouco mais ou menos. Os primeiros artigos e notícias mais detalhados sobre esta prática datam de 2017. Os títulos e destaques que me surgiram através da minha pesquisa falam de “apanha  ilegal de amêijoa”, “trabalhadores asiáticos usados em esquema ilegal de apanha de amêijoa”, “trabalhadores de origem asiática chegam através de circuitos de tráfico de pessoas e imigração ilegal”. Era isto a que me referia quando disse eu não sabia.

O auge da minha pesquisa deu-se ao ler uma reportagem do Expresso, de seu título “Escravos do Rio”. Depois de ler o artigo na íntegra, as fotografias que tinha tirado começavam as extravasar as suas margens e as margens do Tejo. Entendi que tinha fotografado o que não é suposto acontecer em nenhuma altura, muito menos em 2019. Houve, e pelos vistos continua a haver, quem seja forçado a trabalhar em condições desumanas, sem garantias ou futuro melhor à vista. Tudo na vida deles é improvisado e remediado, a forma como apanham amêijoa, as embarcações que usam, as mochilas e os cestos, os fatos de mergulho gastos e remendados, os sítios onde habitam, que se assemelham a uma mistura de acampamento e barracas, e o elixir da força de vontade deles é o tabaco e o vinho de pacote, e muita resignação.

Depois, até se refere que este esquema, este negócio, chega a ser mais lucrativo do que o tráfico de droga. Cada vez se expandem mais e ganham outro significado as imagens que captei. O Samouco, uma terra que parece tão pacata e de tanta tradição e história, que ecoa povos ribeirinhos e grandes quintas e herdades de outrora, é igualmente palco de um sofrimento silencioso, daqueles homens e mulheres de olhos amendoados e pele escura, e rosto dócil, que têm na oscilação das marés as suas únicas leis de trabalho, e que avançarão, dia após dia, ano após ano, aqui ou noutro lugar, sob a mão aparentemente invisível dos que ditam as regras deste jogo em que já se sabe, ab initio,  quem é que perde e quem é que ganha.

Disclaimer: Este texto é meramente produto da opinião e da experiência do autor. Os factos, descrições, alegações e suposições assentam no que o autor viu e leu, não estando tudo isso exaustivamente verificado e cabalmente provado. Não há, portanto, qualquer intuito deste texto ser uma peça jornalística com contornos de reportagem ou notícia. O que é pretendido pelo autor é que este texto seja encarado como uma crónica ou artigo de opinião.

 

Sobre o autor:
Nasceu em Lisboa há vinte e dois anos. Estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Escreve por aí em blogs e cadernos desde a adolescência. Em 2018, lançou um livro de poesia (Os Consulentes) pela editora Urutau. É fã incondicional de autores como Bukowski, Jack Kerouac e Anthony Frewin.

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