Revista Rua

2021-07-19T16:33:46+01:00 Histórias

O Palacete Júlio Lima e a luta contra o tempo

Até ao momento, não há registos de avanços no processo judicial, mas o tempo é escasso e poderá ditar uma perda irreparável para este que é um edifício histórico, cultural e patrimonial da cidade de Braga – e quiçá do país.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Redação19 Julho, 2021
O Palacete Júlio Lima e a luta contra o tempo
Até ao momento, não há registos de avanços no processo judicial, mas o tempo é escasso e poderá ditar uma perda irreparável para este que é um edifício histórico, cultural e patrimonial da cidade de Braga – e quiçá do país.

Imponente, majestoso e intemporal, o Palacete Júlio Lima é um dos edifícios arquitetónicos mais reconhecidos em Braga. Construído em finais do século XIX, por um filantropo a quem a cidade reconhece o seu mérito, o Palacete encontra-se atualmente desabitado e num estado de degradação a quem o tempo não dá tréguas. Neste processo de reabilitação – ou preservação enquanto riqueza patrimonial – há um impasse que se prolonga há já alguns anos: a não clarificação oficial de quem é, afinal, o atual herdeiro do Palacete.

Recuando no tempo, esta forte estrutura viria a ser mandada construir por Júlio Lima, um industrial de Arcos de Valdevez que chega à cidade de Braga com apenas 12 anos para trabalhar como operário na casa de Domingos José Gomes, onde exerceu a sua profissão até a um ponto de viragem determinante na sua vida. Já com 39 anos, Júlio Lima herda a Fábrica Nova da Romeira, uma fábrica de fiação e tecidos que pertencia aos seus tios, situada em Alenquer. Tirando proveito da sua vasta experiência na confeção, venda e exportação de tecidos, o empresário inaugura a sua própria fábrica destinada à produção de chapéus. Chamava-se A Industrial e estava situada no bairro chapeleiro, na Rua D. Pedro V, em Braga. A fábrica chegou a empregar mais de cem trabalhadores e a atingir um número de quatro mil chapéus a serem produzidos em apenas 48 horas. Aos 80 anos – três antes de falecer – o industrial ainda dirigia a Fábrica Nova da Romeira e A Industrial.

Em finais do século XIX, Júlio Lima manda construir o Palacete para sua residência, num projeto que ficou a cargo do arquiteto Moura Coutinho, responsável por obras emblemáticas na cidade, como o Theatro Circo. Anos mais tarde, na segunda metade do século XX, o proprietário manda inaugurar uma rua mesmo em frente ao majestoso edifício para fins de rendimento próprio. A obra de construção habitacional, em ambos os lados da rua, demorou mais de dez anos e dividiu-se em duas fases. Num primeiro momento, foram construídas as casas do lado poente (ou lado esquerdo da rua), que ficariam conhecidas como as “casas ricas”, por apresentarem uma maior área de terreno e também fachadas mais elaboradas e vistosas arquitetonicamente. Esta fase ficou compreendida entre 1922 e 1933. Os elementos nobres e materiais de construção remetem para um momento marcado pelo progresso económico. Terminada esta etapa, inicia-se a construção das casas localizadas no lado nascente, numa obra que duraria apenas três anos. Contrariamente às primeiras, estas ficariam conhecidas como as “casas pobres” por se apresentarem em terrenos muito mais reduzidos e despojados de elementos decorativos, tendo sido construídas em pleno auge do betão à vista, sem pinturas ou artifícios – revelando apenas elementos geométricos de tendência art decó, mas isentos do luxo ou do brilho que tanto caracteriza este movimento. Em jeito de homenagem ao industrial, a rua ganha o seu nome: Rua Júlio Lima, formalizada a 23 de janeiro de 1930, pela Câmara Municipal de Braga. Sete anos depois, o dono do Palacete requeria ao município um plano de conservação daquele pequeno troço, ao que a autarquia favoravelmente expressou um voto de louvor. Desta feita, a 6 de setembro de 1937, pelas 19h00, era inaugurada a luz elétrica na Rua Júlio Lima.

Embelezado com sete colunas do estilo romano, assim como vários elementos pitorescos, o Palacete Júlio Lima emprega uma monumental fachada com nove janelões, cinco no piso superior, quatro no rés-do-chão. Ao olharmos para o topo do edifício, avistamos uma janela mais pequena e com um formato mais arredondado, destacando ainda a grandiosa porta principal com um vão de escalas que dá acesso ao portão de saída. Numa área considerável, o edifício é rodeado por uma vasta zona verdejante. Já no interior, o cenário é outro. Deixado ao abandono há já alguns anos, por questões de indecisão de posse, o Palacete vai-se deteriorando numa luta contra o tempo. Ao caminharmos pelos longos corredores, as esguias portas introduzem-nos a cada passo um novo compartimento. No entanto, o estado em que se encontra prova a urgência de uma intervenção, visto correr sérios riscos de colapsar por completo. O desgaste é visível aos olhos, assim como as várias fendas que ameaçam os tetos pintados de branco que, aos poucos e poucos, vão deixando cair pelo soalho os fragmentos de gesso que os compõem, num processo intensificado pelas recorrentes infiltrações na estrutura do edifício. Um outro problema que poderá ditar a ruína total do Palacete é a recente obra que está a acontecer mesmo em frente, para fins de construções habitacionais.

E como é que um edifício histórico, datado do século XIX e classificado como Bem Cultural de Interesse Municipal pelo Município de Braga, em 2018, chega a este ponto de deterioramento? Importa, para tal, recuar a 1942: ano em que Júlio Lima acaba por falecer, com 83 anos. Teve dois casamentos, mas dos quais nunca chegou a ter filhos. A primeira mulher falecera no momento do parto, assim como o bebé, mas, curiosamente, o proprietário do Palacete viria a ter uma filha fora do casamento, a quem dedicaria parte da sua fortuna. Os restantes bens – nos quais se inclui o Palacete – são deixados em testamento para uma afilhada, Maria José Ferro, conhecida na cidade de Braga por “Zezinha”. A então herdeira assumiu a coordenação dos voluntários da Cruz Vermelha de Braga entre várias atividades que a reconheceram como uma “cidadã ativa” na comunidade. No entanto, Maria José Ferro viria a ser diagnosticada com Alzheimer em 2008 e acabaria por falecer anos mais tarde, já em 2016. Sem descendência direta, uma vez que nunca chegou a ter filhos, os bens herdados passaram a ser propriedade dos seus irmãos e sobrinhos.

Mas o problema instala-se quando uma empregada doméstica, que teria tomado conta de Maria José Ferro nos dois últimos anos da sua vida, entrega um testamento que a declarava herdeira legal do Palacete. O testamento viria de imediato a ser contestado pelos familiares da antiga proprietária… num processo que se prolonga há cinco anos. Em causa estaria a data oficial do testamento, que remeteria para uma altura em que o tribunal retira a Maria José Ferro todas as capacidades administrativas, dado o avanço progressivo da doença.

A luta judicial mantém-se desde então inconclusiva, enquanto o Palacete se degrada a olhos vistos. Segundo as informações partilhadas pelo grupo Amigos do Palacete Júlio Lima, que visa a preservação da sua estrutura histórica e patrimonial, o tribunal proferiu uma sentença favorável à família de Maria José Ferro, em outubro de 2020, mas foi de imediato submetido um recurso pela parte oposta. Ainda assim, a decisão judicial fica suspensa aquando da transferência da juíza titular do processo para a comarca de Bragança.

Até ao momento, não há registos de avanços no processo judicial, mas o tempo é escasso e poderá ditar uma perda irreparável para este que é um edifício histórico, cultural e patrimonial da cidade de Braga – e quiçá do país.

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