Revista Rua

2020-12-02T12:33:21+00:00 Opinião

O par de jarras pérfido

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
2 Dezembro, 2020
O par de jarras pérfido

A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima. À vista desarmada, confecionaste o caldo por onde, de bestunto, cais nele aos pedaços, e de alarve comerás à grande e à francesa o que te consome. O lampejo oleoso do qual te besuntas escorre-te pele abaixo, revelando a temerosa face que em teus olhos bugalhos escondem lérias aos trambolhões. Chegarás num instante e desta feita ao pessegueiro! Lágrimas de crocodilo resvalam de meus olhos ao pensar em egrégia cerimónia celestial…

O desgosto, nem vê-lo. Afiambra quem lhe vier saltar nos montanhosos escombros,   está no refustedo como quem diz os bons dias, mais coisa, menos coisa, alguns mais em transbordo de copulas arranjadas às três pancadas, outros afogamentos para sossego de carência, outros ainda mais servindo de poleiro em jeito de muleta, mais ainda aqueles que servem para esbanjar na cara de uns que a troca de intimidades e afabilidades podem servir de alavanca laboral, poleiro estatual de mãos que não têm mais a medir, salvo seja, ou nem por isso, garantindo o posto, embora nunca o profissionalismo e a ética, sabe lá o que significa tal vocábulo que abre bocas, pois tampouco saberá do que se trate, se bem que, coincidências das coincidências, é na imoralidade praticante que caminhos são percorridos por pés tão tolhidos quanto o raciocínio; e, mais importante que qualquer coisa, esquecendo, constantemente, parece-me, que canguru carrega ela na bolsa, o seu enteado mais próximo, seu do seu sangue. Às tantas é mais entulho que guarda e nem conta se dá!

Quero lá saber dessa gente, comenta ela em tom de desprezo, em concílio com os pais, na cozinha, ouvindo o crepitar da lenha por trás das costas, murmurando que tais infâmias não são contas para a calculadora da populaça que persiste no mau olhado e no cochicho severo, ai não, mas não é por isso que deixa de ser comentada, enchendo bocas e transbordando sentenças inesquecíveis na memória das gentes, fica o dito por dito, o comentário em jeito de lead, estampado em quem nem com lixívia a cara ia ao sítio. Mal ela sabe que o seu pobre canguru de maus tratos é vítima por causa dela – e não só…

Pousa de rua em rua, abanando os ananases, ajeitando a maçaroca, e não tinha a etiqueta como tantas, esta era distinta, talvez das avançadas, andando aqui e acolá, nas ditas específicas que ela sabia que dava como manchete, piscando o olho a homens casados, ignorando a podridão que os pés sentiam com tamanho recalcamento. De saia não ia trajada, vestia o que lhe viesse à mão no gavetão, e ainda assim encarrapitava uns quantos, há gostos para tudo, não é assim.

Não aprende esta lambisgoia, ai não aprende a vadia, um dia bato-lhe à porta com um sermão na goela que nem vai ser bom, pois que já me está aqui entalada na garganta, dizia uma com enfeites na testa, às tantas confessando-os às paredes, a quem ouvisse. E acrescentava, não fossem as palavras secar-lhe os beiços, Direi das boas cantadas para que também sinta na cara o peso e a dor de umas palavras e não de lágrimas como eu pesei, na balança que presumi estar a levar e a equilibrar nesta fantochada, não será apenas culpa dessa tua lábia, que eu bem sei, dizia ela enquanto fechava as portas com força de rabanada de vento, Mas eis-me aqui a ditar a tua sentença, dita toda ela por alguém que não suporta mais no peito os vexames, monstros convictos, imbecis da não cautela, da pura ignorância repleta de restos, esculpidos ao teu estremecer enquanto figura decente, eu despida, é certo, eu tremelicando-se-me todo o corpo dia e dia, é certo, uns conspiradores que sois de uma tanga cruel que deixa tímidas vítimas débeis, atoladas de mazelas para a vida, avejões, abstrusos, energúmenos seres andantes e destravados! Amarra esse pano e descai pelo pescoço, seria dia santo para os que cá estão e ficam!

Vai-te ao Salvador, vai-te e que morra toda essa tua imbecilidade, abispa-te perante os degraus das encostas e vai-te de rajada, à beça, morra esse pântano penoso, MORRA esse trejeito, MORRA esse mal cultivado, semeado, regado, recolhido, cozinhado, MORRA, que de lados opostos da varanda vos caiam as artimanhas, MORRA tanto e tão sós, aos caídos, caiam desse precipício como numa peça trágica os olhos sucumbem a dor e se festejam, a seguir, desfechos históricos, célebres!, oh, sim!, eu vos eternizo no inferno, nas chamas ardentes do diabo e da barca de quem vos receberá de braços abertos e rosas espinhosas, e eu aqui, com um cálice vos bebo com prazer nesse dia, embalando a mesquinhez tão poderosa como essa que vos coube e soberba vos caraterizou até hoje.

Ardam, por fim, na peçonha em que vos ladeastes, vos entornastes, vos chapinhastes; Morram. E MORRAM os demais parecidos! Arre çamona, prepare-se o cemitério do par de jarras, prepare-se o cemitério dos amores!

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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