Revista Rua

2019-02-06T18:02:45+00:00 Opinião

O paradoxo europeu e o Brexit

Política Internacional
Luís Lobo-Fernandes
Luís Lobo-Fernandes
6 Fevereiro, 2019
O paradoxo europeu e o Brexit

Vivemos um tempo na União Europeia marcado por um paradoxo. Com efeito, detecta-se uma evolução atípica. Veja-se os avanços na integração bancária e no chamado “semestre europeu”. Existe um aprofundamento! Mas, é um aprofundamento anormal comandado pela Alemanha. E, aqui pode estar parte do problema. O problema não está tanto no facto da Comissão Europeia ter perdido algum espaço na arquitetura institucional. É fundamental perceber que o método já não é o da Comissão, mas sim o método do Conselho da União Europeia. Acontece que a realidade do Euro conferiu à Alemanha um poder inusitado no seio da UE. A Alemanha sempre assumiu que o abandono do marco alemão tinha como contrapartida a sua liderança em matéria monetária. A isto somou-se uma perda considerável de visibilidade da França, com repercussões negativas para o conjunto, dado não existir conceito de unidade europeia sem a França – um país crucial na balança da Europa. É certo que Emmanuel Macron tem tentado contrariar esta situação. Em rigor, porém, a França continua a cultivar uma postura fortemente “soberanista”, parcialmente responsável pelo facto de não se ter avançado em matéria de coordenação política.

Neste ciclo difícil não podemos perder de vista a essência do projecto da União Europeia que representa a construção de uma alternativa de paz para o continente, algo verdadeiramente revolucionário tendo em conta a história fratricida entre os europeus. É esse o seu principal mérito. Não o arruinemos.

O Brexit é uma péssima notícia para toda a Europa. Enfraquece a Grã-Bretanha, não reforça a União Europeia, e cria uma distracção gravíssima no preciso momento em que nós precisamos de ter em atenção a alteração do foco dos Estados Unidos para a Ásia-Pacífico, tal como o enorme dilema de segurança que as iniludíveis ambições da China representam para todos. Por outro lado, o voto a favor do Brexit teve muito a ver com a recusa de um largo sector de eleitores britânicos em aceitar a ideia de uma UE “dominada” pela Alemanha. Mas, as insuficientes reformas no âmbito do Euro não se devem às especificidades ou aos “estados de alma” dos nossos aliados do outro lado da Mancha. Ao invés, são em grande parte resultado da falta de vontade política em encontrar soluções consentâneas com a existência de uma moeda única. E, aqui o papel da França para o equilíbrio europeu – e dentro da própria UE – é insubstituível.

Neste ciclo difícil não podemos perder de vista a essência do projecto da União Europeia que representa a construção de uma alternativa de paz para o continente, algo verdadeiramente revolucionário tendo em conta a história fratricida entre os europeus. É esse o seu principal mérito. Não o arruinemos.

Sobre o autor
Professor catedrático (ap.) de Ciência Política e Relações Internacionais; autor do livro Construir a Europa (2005).

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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