Revista Rua

2023-11-14T23:08:00+00:00 Opinião

O perigo da manada

Política Internacional
João Rebelo Martins
4 Março, 2022
O perigo da manada

Vi de rajada o documentário da HBO 4 Horas no Capitólio. Fiquei estupefacto.

Revi-o passadas poucas horas e a raiva apoderou-se de mim: através de comentários na primeira pessoa e de muitos vídeos amadores, captados através de telemóveis ou câmaras portáteis durante a invasão do Capitólio, no dia 6 de Janeiro de 2021, consegue-se perceber até onde é que a civilização consegue desaparecer, parecendo um laivo longínquo perdido no tempo.

Milhares de indivíduos, incentivados por Trump, Rudy Giuliani e fake news, marcharam obstinados até ao Capitólio, com o intuito de impedir que os resultados eleitorais fossem ratificados.

Poderosos, insolentes – uma manada! -, como se dignos das Legiões Romanas ou dos pioneiros quakers, puritanos e garimpeiros, mas completamente desconexos, sem ideologia palpável, contraditórios, apenas e só dando o corpo a combate, por Trump. Tudo por Trump!

A Supremacia Branca, os Proud Boys, Gays for Trump, o autodenominado QAnon Shaman, gente famosa por crimes cometidos no passado.

Gritavam que enforcariam Mike Pence e outros impropérios contra Nancy Pelosi.

Há relatos de quem estivesse estado lá porque o ex-Presidente, algures no tempo e no espaço, foi tocado por Deus e, por isso, é necessário segui-lo. Outro houve que referiu que Trump estava a lutar pelo ideal americano, impedindo que milhares de crianças fossem raptadas e exportadas para serem escravas sexuais.

Charros colectivos, histeria, muita testosterona – são raras as mulheres que aparecem na invasão, apesar da primeira vítima ter sido uma mulher -, fazem parecer que quem lá foi, genericamente, tinha as mesmas intenções de quem vai ver a bola no meio da claque: desoprimir contra um resquício de um passado doloroso, com violência e com fetiche.

No meio daquilo, a polícia, uns heróis naquele dia, sozinhos, abandonados, sem equipamento anti-motim, a enfrentarem a multidão, com a presença de espírito de não sacarem a arma porque, se assim fosse e por muito que isso estivesse perto de acontecer, seria um banho de sangue.

Nas salas, encerrados, funcionários e senadores, o Vice-Presidente; Ruben Gallego, Membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos desde 2015, Democrata, com uma presença de espírito enorme ao pedir aos colegas para não evacuarem o Capitólio porque “quem sai é quem perde”; e poderia ser esse o desejo de Trump para, depois, convocar a Lei Marcial.

O dia 6 de Janeiro enche-me de vergonha. Vergonha alheia.

Depois daquele dia, Trump foi desacreditado por membros do seu partido e, certamente para ele bem mais grave do que isso, foi banido do Twitter e do Facebook. Trump é uma máquina mediática e precisa da web 2.0, de big data, cookies e muita transumância de informação para o insuflar e levar toda a sua loucura a quem o acolhe.

Por isso, há dias, apareceu o Truth.

Será sobranceria ou estupidez pura?!

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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