Revista Rua

2021-03-29T09:51:14+01:00 Opinião

O pior do melhor

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
29 Março, 2021
O pior do melhor

Fruto dos tempos que vivemos – acho melhor dizer assim, do que falar no raio do “novo normal” -, parece-me que andamos todos com a tendência de tentar encontrar pontos positivos nas coisas más que vivemos. É uma tendência que, na verdade, só foi exponenciada agora, mas já vem de há alguns anos, acompanhada de outra tendência que é “sair da zona de conforto”. Daria para desenrolar aqui um textão sobre isso de sair da zona de conforto, mas não é isso que quero trazer aqui. Fico-me só por isto: ninguém vai a uma sapataria e pede o número abaixo do seu, porque é desconfortável; ninguém vai a uma loja de colchões e pede um colchão forrado de cacos de vidro, porque é desconfortável. Na verdade, ninguém vai a loja nenhuma, hoje em dia, porque… pronto. Mas estar confortável é demasiado subvalorizado.

O exercício que proponho a mim próprio, e que vocês só acompanham até ao fim se quiserem (e agradeço muito se o fizerem, que eu preciso de companhia, a dois metros de distância), é analisar a parte negativa do mais positivo que eu tenho na minha vida: o meu sobrinho.

Desde logo, para alguém metódico e organizado como eu, continua a ser muito complicado viver na desorganização. Desorganização de brinquedos é normal, ou está tudo no chão, ou está tudo na mesa, ou está tudo no sofá. Quando começam a ir coisas para debaixo do sofá, já começa a apitar alguma coisa no meu cérebro. Mas o pior é a mistura de elementos e a osmose de desorganização que acontece na casa: não é suposto a garrafa dele estar no meio de carrinhos (na mesa, mas no meio dos carrinhos), ainda por cima quando a garrafa é verde e eu sou um bocado daltónico nos verdes; não é suposto estarem toalhitas em cima da máquina de café ou do microondas; não é suposto estarem cascas de pêra na banca, quando o caixote do lixo está a um metro. Ainda me custa viver neste mini-pandemónio, mas eu chego lá. Ou continuo a arrumar tudo, compulsivamente.

Um ‘problema’ menos grave, mas não propriamente honroso, é eu ter um conhecimento musical muito elevado no que toca a Panda e os Caricas. É um sacrifício que tenho de fazer pelo grupo, caso contrário não há quem perceba que música é que ele quer e não há quem saiba as letras para cantar com ele. A parte das coreografias já não é comigo, felizmente. Mas deixo-vos a informação de que a vaca leiteira não é uma vaca qualquer, dá-nos leite e manteiguinha, mas que vaca tão fofinha, dlim dlão, dlim dlão.

Chegamos, então, ao ponto mais negativo da convivência com o meu sobrinho: ter de lhe mentir. Não faz diferença na vida dele, nem na de ninguém, dizer que não há mais bolachas ou que os desenhos animados foram dormir, mas dói-me mentir a toda a gente, ainda mais a um inocente que amo. Agora foi lindo. Mas voltando à mentira: vai sendo cada vez mais difícil enganá-lo, acaba por ser engraçado vê-lo a assumir as mentiras que lhe contamos – por exemplo, reproduzindo que ele acabou com as bolachas e já não há mais bolachas para ninguém -, mas por outro lado é negativo estar a enganá-lo e ele descobrir algumas das mentiras. E perguntar “e por quê?” e eu ficar sem saber o que dizer. É um bloqueio criativo, que depois fomenta a criatividade para criar textos destes. É uma pescadinha de rabo na boca criativa. A pescadinha é criativa, não a boca. Pronto, isto está a deixar de fazer sentido, é melhor parar por aqui.

Espero que haja pessoal solidário comigo, que passe pelo mesmo e que saiba lidar. Sobretudo, lidar com as músicas do Panda. Não nos esqueçamos que o moleiro usa o moinhooooo para os cereais moeeeeer, deixa os grãos tão pequeninooooos, que farinha hão de seeeer. Com o vento a soprar ou com água do ribeiro, o importante é o moinho rodar e fazer feliz o seu moleiro. E nós sermos felizes com as coisas boas e coisas más. Na zona de conforto.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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