Revista Rua

2020-05-22T10:44:24+00:00 Opinião

O político não precisa de lições

Política
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
22 Maio, 2020
O político não precisa de lições

Idealmente, a leitura deste artigo deveria constituir um incentivo para nos debruçarmos definitivamente sobre o assunto tratado, mas nem todos têm paciência, tempo ou energia para tal. Porém, espero pelo menos remeter o leitor para uma realidade que é hodiernamente ofuscada pelas sinuosas manobras do poder político.

Confesso que durante a última semana assisti a uma panóplia de acontecimentos que despertaram em mim um sentimento de desconfiança bastante acentuado: as ajudas à TAP, os problemas no processamento dos pagamentos do lay-off, os ajustes directos, os apoios do Estado à imprensa…Mas como o espaço é curto para tantas referências específicas, propus-me a procurar uma causa comum a todos os acontecimentos.

A crítica à classe política atingiu já um patamar paradoxal: a disseminação de uma opinião desfavorável é tão extensa que esse apontamento crítico acaba por se vulgarizar. Por conseguinte, essa visão negativa torna-se, não raras vezes, completamente inócua.

Esta constatação faz-me viajar no tempo. Já alguns anos passaram desde que senti a marca de uma primorosa leitura: “o Poder, uma nova análise social”, de Bertrand Russell. Nesta magnífica obra, o autor constatou que “adquirir imunidade à eloquência é da maior importância para os cidadãos de uma democracia”. A eloquência, como arte de bem falar, é uma virtude. Mas nunca enquanto arma deturpadora. E assim, o ensinamento de Russell é tão actual quanto inteligível.

Contudo, Russell fez este apontamento em 1938. Se ainda hoje contássemos com o benefício da sua presença entre nós, estou certo que o autor manifestar-se-ia perante uma enorme surpresa em relação às alterações que a política experienciou. É que hoje em dia nem sequer é necessário ser-se eloquente para lograr fazer parte de um aparelho com poder de influência. Basta entrar num conjunto ordenado de meios, já devidamente enraizado, e uma robusta armadura passa a ser envergada pelo “político”, enquanto a maré entretém a sociedade com uma dança de cadeiras. Porque a política e o mérito não vivem numa relação simbiótica.

Contudo, só à boleia de uma comunicação social maioritariamente complacente – e muitas vezes servil – é que a classe política se permite a cimentar uma posição imaculada. Um breve “zapping” pelos meios de informação convencionais oferece-nos uma perspectiva esclarecedora sobre a influência que o Estado e aqueles que se entregam à política exercem sobre os media.

Foquemos um simples ponto: existe um verdadeiro escrutínio sobre o mérito do que se discute na Assembleia da República? Em boa verdade, evocando o escudo dos valores da democracia e inerentes a reminiscências revolucionárias, não faltarão vozes que respondam afirmativamente à questão enunciada. Aliás, uma breve referência a qualquer sistema ditatorial, no sentido de nos fazer ver que tudo poderia ser muito pior, tem a inestimável vantagem de combater qualquer apreciação crítica ao sistema. E está ao alcance de qualquer mesa de café.

Mas a resposta não deve compadecer-se com a natureza subjectiva das opções individuais. Objectiva e maioritariamente, não é aferido o mérito das discussões no parlamento, tão-só se reproduz o que por lá se passa. E a amplitude da matéria remete-nos para uma segunda questão: quem debate nas televisões, rádios e noutros meios de comunicação social, o que é discutido na Assembleia da República? Pois bem, é indubitavelmente claro que o espaço mediático mais divulgado é ocupado pelos próprios intervenientes que também estão – ou estiveram – na Assembleia da República, pelos seus colegas de partido e afins. Este é um dos grandes problemas da nossa democracia. A sua juventude – são apenas 46 anos – não justifica que os intervenientes tenham sempre a mesma proveniência. Enquanto este “escrutínio” continuar a desenrolar-se nas mesmas circunstâncias, nos mesmos locais e pelos mesmos protagonistas, enquanto verificarmos uma promiscuidade acentuada entre o poder político e a comunicação social, a democracia nunca será verdadeiramente vivida na sua plenitude.

Por fim, se o leitor conseguiu afastar, ainda que por momentos, as suas preferências e quaisquer outras influências políticas, estará certamente em condições de aferir o postulado. Mas, ainda que entenda por exagerado tudo quanto aqui escrevi, deverá ter também presente uma reivindicação transversal a todos os nossos actuais políticos: “Este partido não recebe lições de democracia de ninguém!”. Mas aqui, concedo que não é um logro. De facto, desta democracia, estes políticos não precisam de lições. Já as sabem todas!

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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