Revista Rua

O Porto de Miguel Araújo

Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira14 Junho, 2019
O Porto de Miguel Araújo

À boleia de Miguel Araújo pelas ruas da foz do Porto, ouvindo-o cantarolar ao volante, fomos falando de memórias, de lugares e de ossos do ofício. A ideia era descobrirmos o Porto que inspira um dos mais consagrados compositores do panorama musical português, numa viagem em que o próprio Miguel era o guia, destacando as suas paragens de eleição da cidade invicta. Esta entrevista é o Porto mergulhado nos olhos de Miguel Araújo.

Esta entrevista foi publicado originalmente na edição #32 da Revista RUA, em abril de 2019.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Neste carro, a playlist toca o quê? Miguel Araújo?

(risos) Não… Ouço Spotify! Acho uma coisa maravilhosa. Como é que alguém pode dizer que um CD é melhor? O Spotify tem os algoritmos e eu descubro coisas novas todos os dias. O algoritmo antigamente era o senhor que estava no balcão a vender CD’s, mas agora já não (risos). O universo do Spotify é espetacular. Ouço coisas que nem sei quem canta, nem sei pronunciar o nome da banda. Faço start radio e deixo fluir! Neste momento, ouço muito Ben Folds, Milk Carton Kids, Tim Bernardes, Marcelo Camelo, Queen (por causa do filme, fiquei um bocadinho viciado)…

O objetivo deste passeio é conhecermos os locais de eleição de Miguel Araújo no Porto. Qual é o primeiro lugar onde nos leva? 

Eu sou fanático por mar. Portanto, toda a costa do Porto, desde a Praia da Luz à zona do Edifício Transparente de Matosinhos, é um dos pontos de destaque para mim. A zona da Foz é onde passo o meu tempo, onde passeio com os meus filhos… sim, porque a minha vida é a música e a minha família. A minha vida e a minha carreira já não são coisas separadas. Tenho o meu estúdio em casa, inclusive, o que me permite ter instrumentos espalhados pelos corredores, ensaiar em pijama com a minha filha a gatinhar na sala… (risos) As praias desta zona, depois de muitos anos totalmente poluídas, têm agora bandeira azul, mas como os portuenses ainda não assimilaram isso, as praias estão sempre vazias e, tranquilamente, posso usufruir de praias quase desertas. A minha rotina começa com uma corridinha pelo Parque da Cidade, faça chuva ou faça sol. Depois, não dispenso uns passeios de bicicleta com os meus filhos por esta zona da Foz. Correr e andar de bicicleta é algo que eu sou viciado. Adoro! Uma vez tive um concerto em Esposende e fui daqui até lá de bicicleta pela ciclovia. Demorei três horas e meia!

Não sai muito desta zona, portanto…

Não saio muito do Porto, exceto quando vou para os concertos. Se eu recebesse uma ordem do tribunal, colocando-me uma pulseira eletrónica na canela, dizendo que eu só podia andar num raio de três quilómetros, não me fazia diferença nenhuma! (risos) É por aqui que eu ando. E, como sou daqui (nasci na Maia, mas vivo nesta zona desde os dez anos), as pessoas que me conhecem já me conheciam antes. Aqui estou em casa, como sempre estive.

“Não saio muito do Porto, exceto quando vou para os concertos. Se eu recebesse uma ordem do tribunal, colocando-me uma pulseira eletrónica na canela, dizendo que eu só podia andar num raio de três quilómetros, não me fazia diferença nenhuma! (risos)”

A crescente vaga de turismo no Porto não o incomoda?

A cidade do Porto tem tido um crescimento exponencial, principalmente na Baixa, mas essa azáfama ainda não chegou aqui à zona da Foz. Claro que ninguém pode ficar indiferente aos problemas que isso cria, mas eu tenho uma visão diferente: apesar de eu ter nascido na Maia, a minha família, os Araújo, é mesmo natural do Porto há muitas gerações. A papelaria mais antiga do mundo, que ainda existe, é da minha família. Chama-se Araújo e Sobrinho e é no Largo São Domingos. Daquilo que vejo, entre o passado e a atualidade, eu se calhar prefiro assim. Claro que estou a falar sem morar lá, mas eu lembro-me de fazer interrails com os meus amigos quando tinha 17 anos e chegávamos à conclusão que os centros das cidades eram realmente centros. Isso punha-nos a pensar no porquê de a nossa cidade não ser assim. No porquê de uma ida ao centro do Porto significar ser assaltado. Por isso, de certa maneira, prefiro assim. Acho natural, o desenvolvimento faz-nos bem! Em 1700 e tal, a Rua Mouzinho da Silveira era podridão. Eu prefiro desviar-me de um Starbucks do que desviar-me de um abutre! (risos) É assim que eu penso. Nós temos a mania de que dantes era tudo ótimo, mas não era necessariamente.

Enquanto passeamos no Parque da Cidade, podemos falar desta sua fase com o espetáculo Casca de Noz? Que espetáculo é este?

O concerto surgiu de uma ida inesperada a uma sala no Luxemburgo. De véspera, o cantor brasileiro que ia atuar lá no ciclo de música lusófona cancelou por motivos de doença e lembraram-se de mim para o substituir. Mas não tinha tempo sequer para preparar um espetáculo com a banda. Então, fui sozinho, a mentalizar-me que o conceito do espetáculo seria mesmo esse: eu estar sozinho. E correu muito bem! Foi algo que adorei fazer e, portanto, lembrei-me de preparar um espetáculo a solo, viajando pelos vários instrumentos que eu toco e nos quais eu componho: a guitarra, o ukelele, o piano, etc. O Casca de Noz é exatamente isso. As músicas que entram são todas as que me apeteçam. Não é um espetáculo baseado num álbum, é um espetáculo baseado na minha faceta de autor. Toco músicas que fiz na altura d’Os Azeitonas, toco músicas de outras pessoas, coisa que eu nunca fazia… São músicas que eu gosto, que fazem parte da minha vida.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Isso é quase um remember da altura da banda de covers dos seus tios?

São músicas que explicam o que é a minha música ou de onde a minha música vem. Já toquei Paul Simon, Bob Dylan, Rui Veloso… incluo músicas que eu gosto, que eu toco em casa… Faço dessa informalidade o próprio espetáculo. É esse o sentido do Casca de Noz.

Falou-nos de Rui Veloso e lembramo-nos da música “Sangemil”. Como foi cantar com Rui Veloso, outra influência portuense?

A música já estava lançada no meu disco Giesta e, quando foi o meu espetáculo no Coliseu, convidei o Rui Veloso a tocá-la comigo. Sangemil era onde ficava a casa da minha avó, em Águas Santas, e era onde os meus tios ensaiavam – uma vez, o Rui Veloso, por ser amigo de um deles, foi lá, com a guitarra dele. Estava eu a dar os primeiros passos na guitarra. Foi uma coisa histórica para mim porque ele era (e é) o meu mestre soberano. É como o Elvis Presley ou o Mickael Jackson para outras pessoas (risos) Ele entrar ali na sala de casa da minha avó foi uma coisa épica. Sonhar ser o Mickael Jackson é difícil, mas sonhar ser o Rui Veloso, um artista que é do Porto, torna a coisa mais humana. Então, praticamente obriguei-o a cantar a música comigo. Cantei e toquei com o meu ídolo, isso foi especialíssimo!

Já riscou Rui Veloso da sua lista de colaborações. Quem falta mais?

Alguns são inatingíveis. Gente de outros países, alguns já morreram, o que torna a coisa mais complicada (risos). Mas tenho muitas parcerias na calha. Estou numa fase em que já não penso muito em lançar álbuns, porque a ideia de álbum, algo que tem de ser super coerente, estava a fechar-me artisticamente. Eu nunca me sentei para escrever um álbum, eu sento-me para escrever canções. Portanto, agora, prefiro lançar mais singles e dedicar-me música a música. Nessa lógica, tenho alguns duetos em vista.

Continua a ser a mistura de todas as suas facetas: um cantautor?

Sim. Eu adoro tocar e considero que eu daria um bom guitarrista de uma banda… já não daria um grande cantor de uma banda, mas estou muito mais apaziguado com o ato de cantar. Estou com muita mais confiança. Dantes, para mim, cantar era um mal necessário. Agora já não.

“Achei que as minhas histórias tinham que ser forçosamente na língua que eu falo quando vou ao supermercado (risos)”

Esta é uma fase a solo, depois de uma série de concertos com o António Zambujo em muitos palcos. Foi interessante colaborar com ele?

Senti que aprendi muito com os métodos do Zambujo. Eu era muito desconcentrado em palco, estava sempre a reparar em tudo. Via alguma pessoa a levantar-se na plateia e não tirava os olhos, a pensar no que a pessoa iria fazer (risos). O Zambujo obrigou-me a concentrar. Antes da cortina subir, ele só dizia: “concentra-te!”.

Acha que o seu percurso impulsionou a lógica de que um artista português deve cantar em português?

Acho que não… acho que são fases. Eu apareci numa altura em que apareceu muita gente a fazer isso. Os Deolinda, o Samuel Úria… Isto agora é uma nova vaga a cantar em português, mas eu não tenho qualquer responsabilidade nisso. Eu canto em português não por achar que deva alguma coisa à língua ou vice-versa, mas porque achei que as minhas histórias tinham que ser forçosamente na língua que eu falo quando vou ao supermercado (risos).

Está sempre a cantarolar. É esse o seu método de criação de algo novo?

É um bocadinho. O que eu faço é respeitar a ideia inicial que me aparece e pensar se aquilo poderá ou não ser uma música. Acho que esse pedacinho pode ser a essência de uma nova música e trabalho à volta disso. Há uma app chamada SoundHound que, se trautearmos para lá algo, ela identifica se aquela melodia existe ou não. Às vezes recorro a essa app, mas aquilo é muito falível. Há músicas que têm partes melódicas muito parecidas com outras, mas isso pode não ter tanto problema assim. Aquilo que fizeram com o Diogo Piçarra no Festival da Canção do ano passado foi uma injustiça tremenda. Se eu fizer um blues, estou a fazer algo que é igual a biliões de músicas, mas isso não significa que não seja uma coisa nova. É um mundo sem fim!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Costuma acompanhar o Festival da Canção?

Acompanhei quando foi o Salvador Sobral. Mas nunca liguei àquilo. Eu sou sempre convidado para participar, mas não vejo a minha música a participar num concurso, seja ele qual for. Não é dessa maneira que eu olho para a música. Estar a dar pontos a músicas é uma coisa muito bizarra, a meu ver. Parece uma exposição canina! (risos) Que cara fazemos no final? Aquela cara de patinadora artística no fim da prova! Toda a gente faz aquela cara que eu dispenso (risos).

Este ano não vi, mas sou grande fã do Conan Osíris. Acho que aquilo é talento e, simplesmente, penso que as pessoas opinam demais. Ou se gosta ou não se gosta. Qual é a questão? O Bob Dylan canta bem ou não canta bem? Coisas fora da caixa e um pouco estranhas sempre existiram e sempre existirão. Muito raro é furarem até ao mainstream, até às conversas de café – e sempre que isso acontece, a geração mais velha condena como sendo algo miserável e inaudível. Foi assim com os The Beatles. Eu só sei que eu gosto das músicas dele, acho que a escrita dele vai muito para além do que se apanha pela rama. Cheguei a ler coisas do género: “devia haver uma licença ou um género de prova de que se tem formação musical”. Se formos por aí, eu estaria de fora. Não poderia subir a um palco porque eu não tenho nenhum tipo de formação musical. Eu, o Bob Dylan, o Rui Veloso, o Paul McCartney…

Considera que as vozes das redes sociais falam alto demais?

A maior parte das pessoas não comentam numa rede social. Mas as opiniões extremistas são sempre mais ruidosas. Eu acho que a voz da moderação não soa tão alto como as outras, mas continua a ser a principal.

Estamos a chegar à praia de Gondarém, onde termina as suas corridas. Que outros locais emblemáticos do Porto gosta de frequentar?

Restaurantes. Sou um bom garfo, por isso é que tenho de correr como um desalmado (risos). Adoro os restaurantes da moda, estes mais fashion dirigidos por chefs reputados. Mas também adoro os restaurantes de comida mais tradicional: um arroz de polvo… Os restaurantes desse género que restam no Porto são francamente bons. Adoro o A Capoeira, um dos restaurantes mais antigos daqui da Foz, o Wish, que é um restaurante mais moderno, de sushi, ou O Gaveto, já em Matosinhos. Lá está, a minha pulseira eletrónica dava bem para eu ir jantar fora sempre que eu quisesse (risos).

Antes de sairmos do seu carro, que recados gostava de deixar ao público?

Os concertos do Casca de Noz acabam a 15 de junho no Coliseu do Porto. Depois, já tenho muitos concertos com banda agendados, mas só anunciarei em breve. Vai ser um verão como os outros: a tocar por aí fora!

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