Revista Rua

2020-01-18T19:50:15+00:00 Opinião

O que a música da última década me deu

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
18 Janeiro, 2020
O que a música da última década me deu

Pois é, chegou 2020! Ainda me causa estranheza, depois de alguns dias, escrever este número tão… futurístico! Colocando-me de lado na polémica se a década termina apenas no próximo ano, vou tentar, com este artigo, escrever sobre o que foi a última década (2009-2019) na música.

Tenho lido e ouvido muito sobre o que será esta nova década que agora começa. Como será a música, como o mercado funcionará e, sobretudo, que tendências marcarão os próximos dez anos. Na minha opinião, mais importante do que tentar prever o que por aí vem, é importante pensar no que foram estes últimos anos, mastigar bem a informação, perceber bem o que acabou de acontecer e depois disso, sim, pensar no que poderá vir.

Obviamente que, sendo este um artigo de opinião, irei sempre falar da minha experiência pessoal, do contacto que tive e fui tendo ao longo dos últimos dez anos com a música. Começo por dizer o seguinte: a meu ver, os anos ’10 não foram tão fortes, como os ’00. Não me interpretem mal, creio que esta última foi uma década de surgimento de novos valores importantes em vários géneros da música, tais como Tame Impala, que trouxeram de novo o rock psicadélico, Kendrick Lamar, que marca a nova fase do hip-hop pós ‘bling.bling’, e na pop (ou pop rock) houve o aparecimento de novos valores, de artistas individuais que marcarão a década, tais como Lana del Rey, Angel Olsen, Grimes, FKA Twigs, entre tantos outros. Foi também uma década, a meu ver, de uma plena avalanche de novas artistas do sexo feminino (basta olhar para a sequência de nomes que acabei de citar), mas há muitas mais, tais como a Solange, Weyes Blood, Lorde ou mesmo fenómenos mais recentes como Billie Eilish, Rosalía ou a já endeusada Taylor Swift.

Na música eletrónica houve um novo príncipe a surgir chamado Nicolas Jaar e no R&B e hip-hop houve um ressurgimento que, para mim, marca a década. Já falei de Kendrick Lamar neste texto, e já escrevi sobre ele anteriormente. De facto, é uma figura incontornável e marcou uma viragem na forma de fazer música Rap e de como este género se alastrou a outros públicos. Em suma, esta década foi a década que me aproximou, novamente, do hip-hop e comigo, milhares de pessoas pelo mundo. A mensagem passou a suplantar-se aos beats gordos e banhados de mega produções para meter toda a gente a dançar e os novos instrumentais passaram a ter algo mais que, consequentemente, chamou a atenção do público que, por norma, ouve música, dita, alternativa. Houve uma clara mudança na estética neste género, que agradou ao público em geral, aos aficionados e, consequentemente, chegou a outros. Com o Kendrick vieram outros, como por exemplo Vince Staples, Tyler the Creator, Earl Sweatshirt, entre outros. No R&B Blood Orange, Frank Ocean e Solange foram, para mim, os nomes de maior relevo.

Destes nomes todos interessará saber os que não serão artistas-rastilho, ou seja, os clássicos one hit wonders, que aparecem e desaparecem quase à mesma velocidade. Creio que praticamente todos os aqui citados terão uma carreira bem longa e com sucesso.

Para mim os ’10 foram marcados pela minha reaproximação ao hip-hop e pela forma como acabei por mudar a maneira como consumo música. As plataformas de streaming mudaram tudo e, para mim, para muito melhor. Aos factos estão aí: a pirataria desceu para números quase sem precedentes e a venda de discos tem vindo a aumentar; seja em CD ou Vinil. Acima de tudo, passamos a valorizar mais a peça de arte que é uma simples música. O consumo legal desta é a maior prova disso mesmo.

E porque é que para mim, apesar de tudo, os ’00 foram melhores que os ’10? Talvez pela própria experiência que tive com a música, mas não me lembro de haver tantos projetos musicais a aparecer, em forma de catadupa, saídos de vários pontos do mundo, e que reformularam aquilo que estava quase esquecido: o Indie Rock. Surgiram bandas que serão autênticos cânones e referências, tal como foi o grunge nos ’90. Essas mesmas bandas continuaram com os seus trabalhos e, ainda hoje, são cabeças de cartaz nos maiores festivais de todo o mundo. Sem citar nomes, para não prolongar muito nem desviar o foco do que realmente interessa – os anos ’10 – a banda que para mim é a que marca este início de século continuam a ser os Arcade Fire e toda a geração de bandas que surgiram entre 2001 e 2006 continua a ser caso de estudo. Mais ainda que nesta década o Reggaeton não era chamado de Nova Música Urbana.

Para terminar, no plano nacional, é fácil, muito fácil mesmo, de classificar esta como uma das melhores décadas de sempre. O número de bandas, o número de incríveis projetos e discos que todos os anos aparecem, faz-nos ter orgulho do panorama nacional. Vivem-se mesmo bons tempos por cá e ganhamos todos com isso.

Em suma, os ’10 ficarão como uma década boa e de transformação na música; seja a nível estético e artístico, seja na forma como vemos e consumimos aquilo que é a música. Venham daí os anos ’20 e que a música nunca nos falte.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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