Revista Rua

2020-02-05T10:20:52+00:00 Opinião

O que acontece à alma quando os corpos se transformam

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
5 Fevereiro, 2020
O que acontece à alma quando os corpos se transformam

As noites passavam-se todas na mesma repetição de rotina ensaboada, pastosa, subia-se ao patamar do quarto andar, só degraus gastos e bicicletas acorrentadas ao corrimão. Na entrada do prédio as sobras de uma mercearia e um arrumador sozinho a discutir com o mundo. Limpavam-se os pés no capacho e esperava-se que a porta se dignasse a abrir em vagares de coxo, depois dois beijinhos, ou nenhum, Posso entrar, a resposta e depois um serão com dois pares de olhos a mirar uma televisão, no espanto desabitado de gato num parapeito, espiando gente na rua. Apagava-se a televisão, subiam-se dois lances curtos de escadas na direcção do quarto assotado, uma cama meticulosamente feita com um par de travesseiros inanimados, um cacto de plástico na mesinha de cabeceira, ao lado de uma agenda do ano anterior, uma pilha de roupa dobrada a um canto e um candeeiro de mesa pousado no chão, desenhando uma fatia de quarto. Depois as quatro mãos compunham uma só pessoa e abriam-se os lençóis,

(para quê falar se as mãos falam tanto ou mais que a boca?)

a claraboia entreaberta para as traseiras de um restaurante, de um lado, e para o resto da cidade que sobrava nos intervalos das árvores da escola, de outro. O arrumador a dirigir impropérios ao céu e depois pouco mais resta, dois corpos despidos, frágeis, a desarrumação tímida dos cabelos, compostos num gesto desarticulado,

(se me lembrasse desta frase, palavra, se me lembrasse disto tinha-o dito)

que interesse tem isto tudo senão ir para casa depois, entretanto queima-se uma hora a espiar os ponteiros para ver se se despacham, o que o tempo dura quando o observamos, resta-nos encolher os ombros e procurar defeitos na pintura do tecto. Depois outra perda de tempo, buscar as roupas na penumbra num desânimo esplêndido quando, na verdade, se procuram pedaços nossos, para não irmos para casa sozinhos, de alma vazia.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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