Revista Rua

2020-03-31T09:48:47+00:00 Opinião

O que de bom há por aí

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
31 Março, 2020
O que de bom há por aí

Esquecemo-nos do que de bom há por aí, das coisas simples e, agora que sentimos uma enorme alteração das nossas rotinas, temos mais tempo para pensar nelas. Os grandes estádios desportivos da Praça do Marquês, com bancadas de pedra individuais acolchoadas por cartões dobrados, cada um pertencente ao respectivo jogador de sueca, só cabelos brancos e um calão surpreendente, acabaram, já nem os pombos lhes enfeitam as mesas de jogo. Outra arena desaparecida temporariamente é a do Jardim de São Lázaro, onde os atletas guardam as cadeiras e mesas de esplanada por baixo do coreto e uma multidão de espectadores habituais aplaude trunfos envoltos em nuvens de tabaco de enrolar. Veio-me à cabeça uma frase fantástica que adorava que fosse minha, mas que ouvi de um senhor que trabalha numa loja de couros e fechos de correr, para os lados de São Bento

– Aqui temos tudo, só não temos comparação
há frase mais brilhante do que esta? A calma da minha bisavó ao perceber que ia ficar em casa durante estas semanas,

– Fico aqui com o meu bom deus
apesar de não ter nada que ver com isto, lembro-me do avô de um antigo amigo, sentado num murinho de xisto, a ensinar-nos uma cantiga,

– Um dia dois namorados estavam sentados num bananal, o noivo que era malandro, foi-se chegando, sem fazer mal

(o resto não continuo, fica para mim)
não sei porquê, lembro-me também de Shakespeare,

– Toda a gente é capaz de dominar uma dor, excepto quem a sente
e lembro-me de gostar que essa frase fosse minha. Lembro-me de outra, de Steinbeck,

– O verdadeiro, o provável e o lógico: três coisas em que nunca se pensa
lembro-me de apanhar o último comboio antes da meia-noite, no Cais do Sodré, com os meus amigos, entramos por um triz e fizemos a viagem com as carruagens vazias, de um lado o Tejo, negro, do outro Lisboa a dormir, tão menos dourada que de dia. E fica para o fim Esposende, onde a noite era a ronca de nevoeiro a espantar a neblina do céu, duas ou três gaivotas que desapareciam num guincho e nós sentados numa beira de tijoleira, sem dar por nada e que bom que era aquele silêncio, tão bem preenchido. Há tanta coisa de bom por aí.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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