Revista Rua

2019-08-19T10:04:34+01:00 Opinião

O que é isso de estar sozinho?

Crónica
Francisco Santos Godinho
19 Agosto, 2019
O que é isso de estar sozinho?

Às vezes dou por mim a esgravatar nas cavidades onde as pessoas antigas se escondem, na esperança de uma voz ou de um rosto, mas nada, só as relações deslocadas, fora de sítio, ou eu é que estou deslocado, à espera de alguém como se viesse na hora marcada, mas não existe tempo na incógnita da ausência, só um ténue esgar de perfil, suave, por quem pensa que me dói a respirar fundo ao fim do dia? Uma agonia que insiste no diafragma, uma exigência abortada, uma intersecção entre o que foi e o que há-de ser, (o que há-de ser?) de que vale negligenciar a saudade, a saudade mata-se com a distância, a falta da presença só se nota com a sua ausência, pergunta-se para não sei quem que apareceu

– Quem se afastou, eu ou você?

nota-se mais que a presença não seca com tempo, não se esbate, pergunta-se

– Quem se afastou, você que morreu ou eu que insisto em estar vivo?

e

– Quem irá preencher estes quadros sem cor que persistem nas paredes?

tudo tão desamparado, esta vida é como um manco sem muletas numa calçada portuguesa, emudecemos e adiamos, tropeça-se num baú de pessoas que se desconjuntam todas no soalho em peças pequenas, desestrutura-se o comodismo e recomeça-se a compor as imagens, descobrir as traves das molduras e uma pessoa atrapalhada com isto, uma fotografia que não me recorda agora de quem é caída mais para longe e pergunta-se de novo

– Quem se afastou, eu ou você?

mesmo de longe é tudo tão nítido e as imagens que dantes não falavam, estátuas de pedra dentro de uma cerca de madeira e vidro, teimam em remexer-se, penso que ontem não estavam naquelas posições, pessoas dispersas em lugares dispersos e mais feições dispersas, dezenas centenas milhares de feições dispersas, fragilidades minhas ou vossas que para aí andam e que me custam admitir, gente que se busca nas coisas que ficam em casa e não aparecem nunca, aparecem mais tralhas, abandonadas por quem, desconheço quem as tenha abandonado, isso é um lugar interditado do qual só me aproximo se fechar os olhos durante muito tempo e depois desencontro-me convosco, se me voltar, imaginem que me volto, só vos vejo a silhueta a desaparecer pela nesga da persiana.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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