O que leva alguém a sair de casa? A casa é o local onde nos sentimos bem; onde, provavelmente, nascemos ou a terra onde vivemos grande parte da nossa vida, o sítio onde conhecemos todos os recantos, todos os sorrisos, todos os bons dias quando o sol começa a raiar e os “até amanhã” quando o astro maior decide ir para o outro lado do mundo.
O que leva alguém a sair de casa? Muitas vezes apenas com a roupa que leva no corpo e uns documentos que provam a sua existência; deixando para trás a família e os afetos de quem esteve ali a vida toda.
Foi mais ou menos isto que perguntei a Mário Augusto – numa das inúmeros conversas organizadas pelo Rotary Club de Oliveira de Azeméis -, sobre o seu livro “Mandem saudades”.
“Mandem saudades” relata a história de aproximadamente 27.000 portugueses, maioritariamente transmontanos e alentejanos, que entre o final do séc. XIX e o início da Grande Guerra, emigraram para o Havai. Parece estranho porque não foi apenas dar o salto para Espanha ou França, não foi para ir para as nossas Índias.
Foi o maior surto organizado de emigração, onde as pessoas foram, literalmente, para o desconhecido, após uma viagem de barco que os levou a descer o Atlântico até ao estreito de Magalhães, voltando a subir o Pacífico até às águas quentes de Honolulu. Nove meses de viagem onde se sobrevivia; muitos morreram, há estórias de má alimentação, péssimos cuidados de saúde, piolhos. Gente atirada ao mar, embrulhada num lençol porque de pouco valiam, porque o risco de levar um morto a bordo para que se pudesse dar um funeral digno em terra, era um luxo que a saúde dos tripulantes e viajantes não podia aceder. Também há cenas de faca e alguidar, com amantes e casamentos pelo meio. Todo um turbilhão de cenas, descritas pelo jornalista, que nos leva a fazer a viagem e a imaginar o que seria a vida daquelas pessoas. Arrisco-me a dizer que “Mandem saudades” é o lado negro da história da grande epopeia americana de Melville “Moby Dick”; também ela cheia de portugueses.
O que leva alguém a sair de casa? O que leva alguém a embarcar numa aventura destas?
O Professor Agostinho da Silva, por ser um sebastiânico, diria que é porque a nossa ambição foi sempre muito maior que a dimensão do nosso território. Acredito; mas esses que tiveram essa ambição, também por ser sebastiânico, ou fizeram fortuna ou morreram em glória. Apesar de 25% das pessoas do Havai serem luso descendentes, de haver muita cultura nossa presente nas ilhas, só gerações mais tarde é que os portugueses tiveram um papel maior que a força braçal.
O que leva alguém a sair de casa? Será fortune and glory?!
A seca que, rapidamente, se traduziu em fome. A realidade foi essa. As parcas condições de vida que uma Monarquia decrépita e uma jovem República – feita por meia dúzia de pessoas em Lisboa, sem conhecimento real do país -, podiam proporcionar ao povo. O Estado que nunca soube ser Estado, proporcionando apenas bons negócios aos amigos e esquecendo a força motriz do país. Até parece que a história é atual!
Portugal sempre foi um país de emigrantes, de gente que saiu de casa, a maior parte das vezes porque, na realidade, não tinha casa.
Ao ler esta história lembrei-me automaticamente de uma reportagem onde relatavam pessoas que tinham pagado 1500€ para vir para a Europa. Não em turismo. Uma viagem sem regresso. Africanos que arranjaram o dinheiro sabe lá Deus onde, para os transportarem de barco pelo Mediterrâneo.
Muitos morreram, muitos são capturados e mandados de volta para as suas terras – de fome e de guerra! -, e revoltam-se contra os europeus. Há uns que veem e, com sorte, conseguem vingar. Mas a reportagem que me recordei, feita em Lampedusa, a meia dúzia de quilómetros da costa africana, mostrava pessoas a dizer que tinham chegado a Itália e que iam apanhar o autocarro para Roma.
Pobres coitados que venderam a alma à sorte, que partiram em busca de um desconhecido, de uma promessa de uma vida melhor. Será que a encontram?!
Há mais de 15 anos, a ONU relatou todos os problemas que a Europa ia ter por ser um local com população envelhecida e altamente próspera, ao invés do Norte de África, com milhões de jovens e guerras, seca, fome, doenças. As Nações Unidas avisaram a Comunidade Europeia que se não queriam ter os africanos nos seus países, deveriam investir em África. O que fizeram?! Nada. Hoje cresce o populismo fácil e barato da extrema direita contra pessoas de raça e origem diferente.
Por tudo isto tenho o maior respeito pelos imigrantes, por pessoas que deixaram a sua casa em troca de uma promessa.
Por ser conhecedor da nossa História, por ser honradamente português, sinto vergonha alheia por todos aqueles que não querem integrar imigrantes no nosso país. Imagino o sofrimento que compatriotas nossos tiveram, ao longo de séculos, em todos os cantos do mundo, para poderem dar um futuro melhor às suas famílias. Honra lhes seja feita, não imitando os seus opressores.
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Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.
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