Revista Rua

2019-08-23T10:42:51+01:00 Opinião

O que vai ardendo dentro de casa

Crónica
Francisco Santos Godinho
23 Agosto, 2019
O que vai ardendo dentro de casa
Imagem ilustrativa

O ruído das pessoas sentadas nas mesas deixa as palavras de parte, cessam todas de existir numa amálgama gasosa qualquer e a madrugada entra de mansinho pelas frestas, estilhaça a luz nos rostos, na rua as pessoas só existem verticalmente ou inclinadíssimas nas sombras que as perseguem, não há ninguém maior que as sombras, sabe-se lá a matéria de que são feitas, lágrimas dores tristeza saudade, nesta casa a madrugada entra de mansinho, prolonga-se nos corredores que durante o dia desaparecem, a casa cresce na noite da mesma forma que cresce o medo do escuro, (não é o medo do escuro, é o medo de não me encontrar nesta casa, a nossa carne a ferver no lume brando do medo) desenha-se uma noite muito antiga em redor do biombo, escuta-se um pobre que se arruma entre a montra de um restaurante devoluto e uma almofada despida de cor, pergunto

– Estás aí?

para a voz que nunca responde de volta, ouve-se o vazio de um eco dentro da caixa hermética das duas da manhã, repito

– Estás aí?

voltado para o espelho do quarto de banho, sem acender a luz, nesta casa a madrugada entra de mansinho e fica, fica, digo, voltado para o espelho do quarto de banho

– Recorda-me o teu rosto

e fica um eu especado noutro eu, espalmado num deserto escuro e seco de tudo, seco de

feições amenas, seco de mim, puxa-se mais uma pergunta insípida,

– Estás aí?

insignificante, só fantasmas aqui, fantasmas e pessoas que não reconheço, parte do problema é que por detrás de toda a intenção existe uma intenção contrária, inconsciente, que tenta competir com o compromisso oposto e por isso talvez não queira realmente falar ou repetir o

– Estás aí?

para os reflexos de gente que aqui andam, essa matéria ilusória a que chamamos memórias e sinceramente não me apetece mais falar, só me levantei da cama para beber um copo de água.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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