Revista Rua

2021-04-30T10:27:31+01:00 Cultura, Pintura

O realismo imaginário de Mário Belém

Sob uma linguagem muito própria, o artista lisboeta abre-nos as portas ao seu realismo imaginário.
Fotografia ©Carina Pilz
Maria Inês Neto23 Abril, 2021
O realismo imaginário de Mário Belém
Sob uma linguagem muito própria, o artista lisboeta abre-nos as portas ao seu realismo imaginário.

Já fez um pouco de tudo, mas diz-nos que é no papel de ilustrador que melhor se apresenta e reconhece o seu lugar no mundo da arte contemporânea. Seja numa tela convencional ou na fachada de um prédio, Mário Belém não se deixa limitar pelo espaço físico e dá vida a todas as fantasias que habitam no seu imaginário, cruzando-as com a realidade, num exercício de justaposição intencional de imagens e palavras. Nas suas obras, saltam-nos à vista ditados populares e expressões tipicamente portuguesas por uma simples razão: eternizar o nosso vasto património cultural e histórico rege grande parte da sua arte.

Sob uma linguagem muito própria, o artista lisboeta abre-nos as portas ao seu realismo imaginário.

Gostava de começar esta entrevista por conhecer melhor o Mário. Sei que começou por estudar Arquitetura, mas rapidamente percebeu que não era por aí o caminho. Ainda assim, a arte esteve sempre muito presente na vida do Mário. O que é que lhe despertou o interesse para se dedicar exclusivamente à arte?

Desde pequeno que faço rabiscos por todo o lado e comecei a trabalhar muito cedo – com 15/16 anos já fazia trabalhos para amigos. Quando saí de Arquitetura fui para Design Gráfico, tentava sempre introduzir a ilustração de forma a tirar mais prazer e fazer algo mais à minha maneira, mais colorido. E assim foi. Por todos os sítios onde passei fui contratado como designer, mas tinha sempre essa “manha” de introduzir os meus bonecos lá pelo meio. Às tantas, comecei a viver apenas da ilustração, porque comecei também a fazer várias coisas em paralelo. Fiz vários flyers para eventos e foi uma forma de conhecerem o meu trabalho.

E sentia que, de alguma forma, esse trabalho enquanto ilustrador o limitava ou conseguia encontrar espaço para a sua liberdade criativa?

Eu vejo as coisas numa outra perspetiva. Ainda estou formatado para a mentalidade de designer gráfico e ilustrador comercial e, hoje em dia, quando estou a criar tenho de fazer o exercício de não ter essa obrigação de agradar a alguém ou trabalhar para um cliente. E isso, às vezes, acaba por ser um bocado complicado porque sou eu próprio o cliente. Mas é um exercício engraçado, por outro lado.

O Mário insere-se mais diretamente em que categoria da arte: pintura, ilustração ou muralismo? Ou, por outro lado, não se categoriza?

A maior parte do meu percurso é como artista, pintor e muralista, mas a minha base é a ilustração e quando me perguntam eu digo sempre, em primeiro lugar, que sou ilustrador. Porque uma das coisas que já aprendi há algum tempo é que, no mundo da arte contemporânea, a ilustração é considerada uma arte menor. E dá-me algum prazer dizer que sou ilustrador, nesse sentido, para mostrar que não tenho vergonha nenhuma das minhas origens, porque a minha arte pertence ao movimento mais voltado para a street art – que começa agora a entrar mais nas galerias – e é considerada uma arte menor. Já me aconteceu estar numa inauguração de uma exposição minha e passar por mim um casal a comentar “Isto não é arte!”. (risos) Portanto, nós (ilustradores) estamos a conquistar o nosso “lugar ao sol”. Somos a primeira geração a crescer com os desenhos animados e acho que não devemos ter vergonha das nossas raízes. Insiro-me na ilustração até porque tudo parte de um desenho e de uma composição de cores e o processo é muito à base da ilustração.

“A maior parte do meu percurso é como artista, pintor e muralista, mas a minha base é a ilustração e quando me perguntam eu digo sempre, em primeiro lugar, que sou ilustrador.”

E esta vontade de eternizar narrativas em murais e trabalhar a uma escala maior é algo que sempre lhe interessou? 

Sim. Lembro-me de quando era mais novo existirem uns murais comunistas na Avenida 24 de Julho e sempre que vinha a Lisboa com os meus pais ficava colado ao vidro do carro e questionava como seria possível alguém pintar algo tão grande. Portanto, existe esse fascínio desde sempre. Quando começou a haver mais movimentação de street art em Portugal, eu não conhecia absolutamente ninguém desse meio e comecei a ter curiosidade em seguir os trabalhos de vários artistas. Tive imensa vontade de experimentar e com a situação da crise de 2009 o mercado de trabalho para ilustração comercial ficou tão cheio que eu decidi começar a trabalhar para mim. Passei a investir nessa direção e, aos poucos, as coisas foram acontecendo e foi um processo muito giro.

E como é, na verdade, trabalhar com uma escala tão grande quanto a altura de um prédio? Que cuidados ou técnicas são necessários?

Claro que a grande questão de pintar na rua é precisamente a escala, mas há outras relacionadas também com a durabilidade. Mas é uma pintura como outra qualquer e leva o mesmo tempo a ser concluída. A diferença é a questão física dos movimentos e é um processo espetacular, por isso mesmo. Enquanto que para fazermos uma curva numa tela é apenas necessário o movimento da mão, na parede isso não acontece e com a prática vamos lidando cada vez melhor. Outra coisa engraçada de trabalhar na rua é o desapego total das obras, porque já sabemos que aquilo não vai durar como está para sempre. Tanto pode ser consumida pelo sol, como passar por lá um grupo de jovens com latas de spray e que decidem fazer uma colaboração por cima da minha pintura…e eu acho isso muito interessante, o facto de não ter muito apego às coisas. Faço e deixo ficar. Por outro lado, é completamente diferente fazer uma peça para uma galeria, em que fazemos aquilo que nos vai na alma e é muito íntimo, e aquilo que fazemos na rua, porque, por exemplo, quando pinto num prédio há pessoas que moram lá e que vão ver essa obra todos os dias. Temos obrigatoriamente de ter respeito e consideração por isso. Daí termos de fazer algo minimamente contextual e com uma mensagem positiva – pelo menos, esta é a minha ótica – e acho que é importante termos isto presente. Gostava de um dia conseguir começar a fazer coisas mais pessoais na rua, mas ainda não consegui chegar lá.

Então estas obras em murais não partem da intenção de preservar apenas a linguagem do Mário, mas há um enquadramento com o espaço, a cultura e a comunidade onde essas mesmas obras vão “habitar”? Esse cuidado é importante?

Sempre. É obrigatório. Por acaso, estou neste momento a preparar alguns murais que vão acontecer em junho e por uma série de freguesias por Portugal fora e todos os briefings que me passam têm a ver com a intenção de refletir a identidade do local. O meu desafio é tentar fazer algo mirabolante, mas que, através dos detalhes da composição, consigam identificar o que é que representam. As pessoas vão criando uma certa empatia enquanto estou a criar e isso é também uma parte muito gira do processo.

Recorrendo a um jogo de justaposição de imagens, palavras e expressões, o Mário consegue criar uma narrativa visual muito própria. No geral, o que é que procura transmitir através das suas narrativas? Em que é que se inspira para criar?

Há duas coisas que fazem parte do meu objetivo. A primeira tem a ver com a questão da positividade. Acho que a arte tem muitos papéis e, a meu ver, deve ter um papel positivo também. Acho que é importante a arte fazer as pessoas sorrir e acrescentar algo ao dia a dia, de uma forma apelativa e bonita, porque já há tanta coisa má a acontecer à nossa volta que não acho necessário termos obrigações políticas ou religiosas em tudo o que fazemos. Uma outra questão que me rege tem muito a ver com o facto de comunicar em português, porque até há bem pouco tempo o cidadão português não era muito orgulhoso de ser português. Acho que isso foi algo que mudou recentemente, muito por causa do futebol e também da Eurovisão e acredito que houve mesmo uma transição. Para mim, é engraçado “brincar” com a língua portuguesa, porque temos um património cultural e histórico tão grande. Tenho muito orgulho em ser português e acredito que há tanta coisa que podemos fazer para posicionar a nossa identidade no mapa.

E é por esse motivo que encontramos nas suas obras algumas expressões populares, assim como nomes ou figuras que nos são conhecidas no quotidiano? Que peso carregam estes simbolismos e o que é que acrescentam?

São os detalhes que constroem tudo, basicamente. Quando comecei este percurso o meu ponto de partida eram os provérbios e o nosso senso-comum e agora estou cada vez mais fascinado com as tudo aquilo que apanhamos entre conversas do quotidiano, coisas que nem sequer são calão, mas o português “mal dizido” e que serve como ponto de partida para composições alucinantes. Gosto imenso disso, porque toda a gente se identifica de imediato. Um dos meus últimos murais foi o de uma rapariga sentada num vaso de flores e o título é Antes perdida por aqui algures, do que a caminho de nenhures. Tive uma série de pessoas a virem-me perguntar o que queria dizer a palavra “nenhures” e eu nem conseguia explicar, mas é uma palavra muito portuguesa e quem a conhece percebe logo. (risos)

Nas obras do Mário vemos uma fusão entre a realidade e a imaginação. Em que pontos estes dois mundos paralelos se cruzam? Como é que chega a esta linguagem?

Eu gostava muito de ser um pintor hiper-realista conceptual, mas já tentei várias vezes e não consigo ser. Nos meus momentos de autoanálise, vejo que as coisas me saem mais à base da ilustração, portanto, o que eu tento fazer é que as composições, independentemente de elas serem mais “carinhosas”, tenham um toque mais triste, porque a vida é também feita dessas coisas. Em termos de leitura, umas das coisas que me fascina mais é o movimento do “realismo mágico”, que começa na América Latina, mas hoje em dia já vemos artistas pelo mundo inteiro e um dos meus favoritos é o japonês Murakami. A grande análise de uma história de realismo mágico é o facto de ser uma história do quotidiano, mas com um apontamento completamente “louco” pelo meio. E eu gosto muito de fazer os meus desenhos assim: coisas banais, mas com um apontamento surreal.

Nesse sentido, podemos considerar que as obras do Mário não são muito diretas e contêm tanta informação que nos obrigam a olhar mais atentamente? Interessa-lhe esse mesmo exercício de deixar a interpretação ao encargo do espectador?

Sim, isso é algo que me fascina muito e que já mantenho desde o tempo da ilustração: deixar pequenos detalhes no meio do desenho que só uma ou duas pessoas vão encontrar e perceber.

O Mário já se desdobrou em vários projetos distintos, desde editoriais, publicidade, cartoons para revistas de bodyboard, intervenção em murais…há algum que ainda falte no portefólio? O que é que gostava de ainda fazer?

(risos) Isso é uma ótima pergunta e a qual eu faço a mim próprio várias vezes, mas não tenho resposta. Já percebi que o que me dá mesmo prazer é ir fazendo um pouco de tudo. Hoje em dia ainda faço trabalhos de ilustração, que não divulgo, mas que percebi que são o meu motor ou a minha gasolina. Gosto de ir fazendo coisas diferentes, porque estar sempre a repetir as mesmas formas é algo que não consigo imaginar para mim. Independentemente de ter o meu cunho, acho importante ir mudando. Tenho vários objetivos a médio e longo prazo e muitos dos quais passam por ter uma maior projeção a nível internacional.

Estamos a passar uma fase de recomeço, nomeadamente do setor da cultura com a abertura dos espaços culturais, como as salas de espetáculos, os museus e as galerias. Que planos o Mário tem em mente para os próximos tempos?

Em junho vou ter vários murais para pintar e a ideia é a próxima exposição que vou fazer ser uma colaboração com um amigo meu que é fotógrafo. Entretanto, hoje, enquanto andava a passear tive uma ideia de uma exposição individual que quero fazer muito bem breve e agora não sei qual delas fazer primeiro. (risos) Em 2022 gostava de voltar a ter uma presente forte em galerias.

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