Revista Rua

2019-12-23T09:47:28+00:00 Opinião

O último a sair apaga a luz

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
23 Dezembro, 2019
O último a sair apaga a luz

A maior das ironias seria perceber que o meu sogro, depois de cremado, sendo um homem com mais de um metro e oitenta, coube numa urna do tamanho de uma garrafa de vinho – se um homem daquele tamanho coube num espaço tão pequeno, o que será de mim? E quanto ao que sobra de nós: ficará tudo para trás em amontoados de papel ou acabará também com o Homem que as criou? Se a primeira puder ser verdade, sobrará um espacinho nosso aí pelas gavetas e estantes, mas sem pretensões de imortalidade visto que a eternidade parece muito tempo para se lembrarem de nós. E o sofrimento? Acabará algum dia com uma paz enorme que nem sequer concebemos? Talvez termine um dia quando as luzes comecem a diminuir, muito ao fundo, num recanto afastado do ilusório perdão dos nossos pecados. E o sofrimento? Lembro-me, ao escrever esta pergunta, do cego que toca concertina na Baixa e da questão que uma senhora lhe fez

– Porque não experimenta tocar algo alegre? e o cego, com uma paz de monge

– Porque não seria sincero

e, portanto, a importância das coisas é completamente relativa, o que interessava a um, ao outro não poderia interessar por não ser honesto, ou melhor, por não querer amestrar os gritos de dor, por não querer ser mais uma existência monótona no meio de tantas outras soprando murmúrios que ninguém escuta. Tocar algo alegre seria como tapar um corpo nu com uma gravata, absurdamente inútil, um servilismo inaceitável para servir de entretém aos demais. Se a eternidade não for tempo a mais para se lembrarem de nós, que nunca se tape o sol com a peneira.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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