Revista Rua

2018-05-03T11:01:31+00:00 Opinião

O vagabundo aristocrata (I)*

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João Palhares
João Palhares
2 Janeiro, 2018
O vagabundo aristocrata (I)*

“Aí vem ele”, grita Alfred Reeves em How to Make Movies (curta filmada em 1918, mas recusada pela First National para distribuição), provocando a comoção dos gazeteiros do estúdio, que se levantam e começam a correr para acatar as ordens do chefe, Charles Chaplin, em caricatura ditatorial. Mas com a independência que o novo estúdio lhe deu (com o fim do contrato com a First National e com a distribuição dos seus filmes a passar a ser garantida pela United Artists, que fundou em 1919 com Griffith, Fairbanks, Pickford e Ince, a independência e a liberdade de Chaplin cresceriam ainda mais), o realizador via o seu poder aumentar e, imerso no processo criativo, podia até exigir demais aos seus actores, mas nunca mais do que exigia a si próprio. “Num dia normal, nós filmávamos desde perto das oito ou nove da manhã até ao almoço, sem parar”, disse o seu mais fiel director de fotografia, Roland Totheroh, a Timothy Lyons em 1972. “Claro, isto era antes dos sindicatos. E muitas vezes ele queria filmar duas horas depois do jantar. Depois de pararmos para o almoço ou para o jantar, começávamos outra vez”. O actor e realizador Robert Lewis, que trabalhou com Chaplin no Monsieur Verdoux, reparou que “comendo o seu almoço de um só tomate… ele nunca conseguia entender porque é que a equipa precisava de uma hora inteira para o almoço quando ele só demorava alguns minutos”.

Mas o que mais exasperava actores e membros da equipa técnica eram as repetições a que Chaplin os submetia, na procura dos movimentos certos, da luz ideal, da coreografia perfeita, das consequências lógicas. “Levava-se qualquer companhia à falência da maneira como ele filmava”, disse também Totheroh. “Claro que era o dinheiro dele. Mas ele desgastava todos os actores e actrizes da forma como filmava a cena uma e outra vez. Mas era paciente com toda a gente que estava a representar. Apesar disso, ele confundia-os quando fazia alguma coisa tantas vezes e de tantas maneiras diferentes, que eles ficavam sem saber de que forma o tinham feito em qualquer das situações. Lydia Knott em Woman of Paris – ele pô-la esgotada. Finalmente, ela disse: ‘Oh, Sr. Chaplin, por favor diga-me o que é que estou a fazer de errado e o que é que quer. Estou exausta. Não sei o que fazer’. Ele disse: ‘Está a sair-se muito bem, só quero que faça mais uma coisinha’”. Olhando para a cena que Chaplin demorou mais tempo a filmar (a do primeiro encontro de Charlot com a florista cega interpretada por Virginia Cherrill em Luzes da Cidade e que levou 342 takes para estar pronta), só podemos saudar o seu método e perguntar se não terá sido esse mesmo método e essa mesma atenção ao detalhe e à lógica dos movimentos a encher a última cena do mesmo filme de ramificações e leituras infindáveis.

*O Lucky Star – Cineclube de Braga vai exibir todas as longas-metragens de Charles Chaplin durante os meses de Janeiro e Fevereiro.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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